COMO LIDAR COM PROBLEMAS DE RELACIONAMENTO: PERSPECTIVAS COMPREENSIVA E UTILITARISTA

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Recentemente eu presenciei duas discussões a respeito da maneira de se lidar com um relacionamento levando em conta os problemas do mesmo. Dentro destas discussões, duas posições bem definidas se evidenciaram:

  1. As pessoas não são como objetos descartáveis, que podemos dispensá-las quando os problemas aparecem.
  2. “Cada um sabe onde o seu sapato aperta”, então os problemas podem sim ser razão suficiente para “dispensar” uma pessoa.

As posições que se evidenciaram nas discussões mostram dois lados opostos de uma mesma moeda. Essa moeda se chama “como lidar com problemas de relacionamento” e os lados opostos são representados por duas perspectivas radicais, as quais analisaremos abaixo:

A PERSPECTIVA DA COMPREENSÃO

Quem diz que as pessoas não são como objetos descartáveis, que podemos dispensá-las quando os problemas aparecem é, notavelmente, uma pessoa que opta por ser mais compreensiva com relação aos problemas de um relacionamento. Por trás da ideia de que as pessoas não são descartáveis há a noção de que as pessoas tem um valor e este deve ser levado em consideração quando surge um problema de relacionamento. Ora, então é de se supor que esta pessoa tenha uma tendência natural a dialogar com o outro quando surge um problema e não tomar atitudes radicais. Ora, se ela busca dialogar com o outro, levando em conta que ele tem um valor a ser considerado, então é de se supor que o diálogo seja perpassado por uma compreensão para com o outro, pois seria contraditório dialogar com alguém [considerando o valor que a pessoa tem] e não “dar a mínima” para o que a pessoa tem a dizer, ou seja, não buscar compreender a fala do outro. Por isso, é de se postular que quem considera que as pessoas não são descartáveis seja mais compreensivo.

Ademais, seguindo a mesma lógica que nos fez inferir que quem considera o valor das outras pessoas seja mais compreensivo, podemos concluir também que este seja mais propenso a buscar soluções para os problemas de relacionamento, ou, no mínimo, esperar soluções do outro. Veja bem, se este indivíduo, por enxergar o valor dos outros e não os considerar descartáveis, não toma atitudes radicais diante dos problemas, é de se supor que ele pressuponha que o problema pode ser resolvido, ou por ele ou pelo outro. O que determina se o próprio indivíduo vai procurar resolver o problema ou se ele vai esperar uma solução vinda do outro, é relativo. Podemos enumerar diversos fatores que podem determinar a “espera de uma solução” ou a “tomada de atitude para resolver o problema”:

  1. a) Se o indivíduo tem uma personalidade mais passiva, poderá esperar a solução.
  2. b) Se o indivíduo tem uma característica mais ativa, pode buscar por si uma solução.
  3. c) Se o indivíduo é compreensivo e seja o primeiro problema do relacionamento ele pode buscar uma solução, pois zela pelo seu relacionamento.
  4. d) Se os problemas são rotineiros, mesmo alguém compreensivo e ativo pode esperar uma solução do outro, pois já se mostra fadigado de buscar soluções.
  5. e) Até mesmo alguém com uma característica mais passiva pode buscar uma solução, caso sinta que o seu relacionamento está ameaçado.

                Estas não são as únicas variações, tudo é muito relativo. O que se deve ter em mente é que tudo depende do contexto para saber se alguém irá buscar uma solução por si próprio ou esperar que o outro resolva o problema. Os casos variam de acordo com a personalidade da pessoa, da situação do relacionamento, da constância ou ausência do aparecimento dos problemas, entre outros fatores.

A PERSPECTIVA RADICAL UTILITARISTA

                Quem diz que “cada um sabe onde o seu sapato aperta”, então os problemas podem sim ser razão suficiente para “dispensar” uma pessoa é adepto de uma concepção sensata, mas que reflete – em primeiro plano – uma propensão maior a usar a autodefesa para se esquivar de efeitos provenientes dos problemas do relacionamento. No entanto, há algumas coisas importantes a mais que devem ser observadas dentro desta perspectiva. Vejamos!

                De imediato é imaginável que a pessoa adepta da ideia de que os problemas de relacionamento, quando aparecem, são motivos suficientes para que se ponha um fim em um relacionamento seja um extremo radical, que se baseia na ideia de que as pessoas são descartáveis, caso não satisfaça a sua necessidade de bem estar. Ou seja, Liga-se, de imediato, a ideia desta pessoa à perspectiva Utilitarista de vida. Segundo a perspectiva Utilitarista, as coisas, assim como as pessoas, são boas na medida em que possuem uma utilidade para o indivíduo ou cumprem uma função positiva na sua vida, caso contrário as pessoas ou os objetos não são considerados bons e podem ser descartados e trocados por melhores. Pois bem, a perspectiva utilitarista seria o extremo oposto da ideia descrita anteriormente da pessoa compreensiva, que considera o valor das pessoas e busca/espera soluções para os problemas do seu relacionamento.

                Deste modo, uma pessoa utilitarista (radical) não considera o valor das pessoas, para ela as pessoas servem para cumprir funções e se elas não cumprem podem ser trocadas por outras que cumpram a função desejada. Traduzindo para a discussão central do texto, a pessoa utilitarista considera que é função do outro lhe proporcionar bem estar e caso ele não cumpra esta função ou trafegue no caminho contrário, ou seja, se a pessoa lhe causar mal-estar ela deve ser descartada e trocada por outra pessoa que seja funcionalmente efetiva.

                Obviamente, este extremo de maneira de se portar em um relacionamento diante dos problemas causados pelo outro deve ser evitado, pois ele é extremamente ofensivo para a dignidade humana. Este comportamento transforma as pessoas em coisas, equipara as pessoas a objetos, os quais são viáveis pelas funções que cumprem e são descartados na medida em que se tornam obsoletos. A questão é, uma pessoa não se torna obsoleta, uma pessoa muda, uma pessoa passa por problemas, uma pessoa tem seus dias/fases boas e ruins e isto deve ser levado em consideração. É importante ter consideração para com as pessoas pelo simples fato de que sofrer um “descarte” causa um dano incomensurável ao outro do ponto de vista psicológico, isto é, o outro sofre, o outro se angustia, o outro se traumatiza, entre outros efeitos negativos. Então, o respeito ao outro deve ser colocado antes do egoísmo e da imaturidade de achar que se é o centro do universo e que tudo deve convergir para o seu bem estar pessoal.

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Em um próximo texto abordo uma perspectiva mais centralizada, algo que esteja entre estes extremos.

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~X~

(Anderson Yankee)

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