OS JOGOS DE PODER EM RELACIONAMENTOS CONJUGAIS: SOBRE AS PESSOAS QUE TÊM A NECESSIDADE DE SE SENTIREM SUPERIORES

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Nomeado a partir de um monstro bíblico, Leviatã trata da organização da sociedade. Para Hobbes, o homem em “estado natural” desconhece as leis e a idéia de Justiça. Todos têm direito a tudo e, para conseguir o que desejam, lançam mão da força e da astúcia. A conseqüência é a “guerra de todos contra todos”. A única forma de refrear essa guerra seria realizando o pacto social, quando todos abrem mão de seu direito em nome de um único soberano.

Resumindo, coloquei o Leviatã aqui somente como representação do poder, uma coisa tão almejada em alguns tipos de relacionamentos. Mas dá pra fazer uma referência a certas pessoas como seres em estado de natureza, bem como Hobbes trata lá no livro. Dá também para comparar os jogos de poder em um relacionamento com “a guerra de todos contra todos”. Enfim, lê o texto que tu entende.

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Essa história de que em um sentimento que perpassa um relacionamento sério só existe maravilhas, que o sentimento dos cônjuges é algo efetivamente lindo e que um amor verdadeiro e perfeito é possível, sendo este desprovido de qualquer maldade, malícia ou elementos quaisquer que sejam negativos é a maior das balelas. Um relacionamento é um jogo de poder ou é uma relação de submissão; raramente essas duas situações não existe, caracterizando assim uma neutralidade.

            No jogo de poder existente em um relacionamento nem sempre os dois cônjuges jogam. Falando na linguagem básica de quem joga videogames, as vezes só tem um controle, então um joga e o outro olha. Isso acontece quando você tem uma pessoa geniosa e outra mais submissa, que acata a tudo, que aceita todos os tipos de situação de maneira passiva ou inerte. Mas quando você tem duas pessoas “geniosas” em uma relação, aí a coisa esquenta e você consegue perceber claramente o jogo de poder. No terceiro caso, na relação neutra, não há jogos de poder e nem submissão permanente, o que seria o ideal.

A partir de hoje você vai parar por dois minutos para pensar se no seu relacionamento há uma disputa de poder ou uma relação de dominação ou, para a sua felicidade, pode ser uma relação neutra – caso seja, fique feliz! Vamos ver então, o que há em cada um destes casos.

  1. JOGOS DE PODER – Em que consiste então este jogo de poder em um relacionamento? Ora, é bem simples: Ambos querem ser o indivíduo dominante na relação. Que bonito isso, hein? Sim, estamos falando de um relacionamento conjugal, não de uma disputa eleitoral!

            Como assim, ser o indivíduo dominante? Este tipo de pessoa que busca ser o “dominante” deve ter sido maltratada pelos pais na infância ou não deixaram ela brincar no parquinhos com as outras crianças, ou ainda devem ter roubado o seu brinquedinho preferido, pois ela tem um vazio enorme, assim como uma angústia aterrorizante que a faz entrar em um relacionamento conjugal para subjugar o outro na tentativa de se afirmar como a “cabeça da relação”. Agora imagine a “puta” situação onde tem duas pessoas cheias de patologias psicológicas como estas em uma relação! Aí está um jogo de poder em um relacionamento: Duas pessoas problemáticas, um procurando estar acima do outro para se sentir seguro.

            Cara, não é necessário alguém estar acima de outro para se sentir bem consigo mesma! Isso mostra uma mente doentia, ou duas, o que é pior. Se você que está lendo se identificar com esse caso, procure tratamento, você tem problemas. Veja bem, isso é um problema de uma pessoa mal resolvida, de uma pessoa que não se sente bem consigo própria ou com a vida que tem, por isso ela busca estar acima (obviamente, colocando o outro para baixo) para poder se sentir bem, segura, tranquila. O pior de tudo é quando esta infeliz pessoa só consegue se sentir bem quando o outro está mal. Por Zeus, isto é bizarro, porém, há tratamento.

            Bom, esta infeliz pessoa geralmente usa todo o seu poder intelectual, todas as formas de observação e uma investigação rigorosa, se brincar toma misturas preparadas em laboratório para aguçar mais a sua atenção (exagerei nessa) para poder perceber o que deixa a outra pessoa mal, angustiada, fora do eixo, desequilibrada para criar uma brecha na fraqueza do outro e poder sair de superior. É muita energia gasta para fins inúteis. Essa pessoa poderia usar a sua inteligência e criatividade para algo produtivo, isto é certo. Pois bem, esta infeliz pessoa usa a sua criatividade bolando planos sinistros, forçando situações, manipulando fatos e pessoas para criar algo que atinja o outro justamente para que ele se desequilibre, fique mal, caia em um momento de fraqueza. Enquanto isto o doente mental está se sentindo bem, mesmo que não demonstre por fora, mesmo que não transpareça.

            Pois bem, o indivíduo doente que necessita de auto afirmação e da fraqueza do outro para se sentir bem, pode ser bom em encenação também. Então cuidado. Além disso, o cinismo, o sarcasmo ou até a falta de escrúpulos podem estar presente nas atitudes desta pessoa que infelizmente é afetada por uma grave patologia mental. Muito cuidado com este tipo de pessoa, a sua função é acabar com a felicidade das pessoas com quem ela se relaciona – mesmo que afirme o contrário –, ela busca ficar bem às custas dos outros, por isso é egoísta, egocêntrica.

  1. A SUBMISSÃO E JOGOS DE PODER – Acima tratei do caso de dois indivíduos doentes psicologicamente, os quais não se sentem bem com a própria condição e por isso buscam fazer os outros fraquejarem com seus planos maleficamente articulados, justamente para se sentirem bem. Na verdade, eu falei de uma pessoa, mas é suficiente para entender que no jogo de poder há duas pessoas deste tipo. Veja bem, foi também importante explicar o caso de uma pessoa só por conta de que no caso da submissão apenas uma pessoa é do tipo que foi explicado, enquanto que a outra não participa do jogo de poder.

            Imagine que uma pessoa normal psicologicamente (sem as características da pessoa doentia que se esforça para estar acima do outro na relação) tragicamente começa a se relacionar com um doente que provavelmente não teve uma infância sadia. Pobre desta pessoa. Ela deveria ter consultado uma cartomante antes (essa foi brincadeira). Pois bem, esta pessoa normal pode ter duas características dominantes, a sensatez ou a submissão. Vamos pensar desta maneira e ver o que pode acontecer em cada um dos casos:

a) Quando uma pessoa sensata se envolve com uma pessoa que procura se afirmar na relação, assumindo que ela seja de fato sensata, se ela perceber a jogada do outro, com certeza, ela irá abandonar esse relacionamento. Isto é uma atitude sensata. Porém, pode haver de a pessoa sensata ser esperançosa e procurar remediar a situação, mostrar ao outro que nem todo mundo é seu inimigo querendo roubar seu brinquedinho preferido e que ela não precisa agir sempre na ofensiva como um bicho selvagem. Não quis ofender os bichos selvagens, juro. Mas se pensarmos bem, a pessoa que procura se afirmar no relacionamento é bastante primitiva; Acho que o cérebro reptiliano é predominante nela. Pois bem, voltando à questão. Uma pessoa sensata, creio eu, deve poder, com muita paciência mudar a cabeça de um indivíduo com necessidade de ser “dominante”, mas deve ser uma missão extremamente cansativa e penosa.

            Na tentativa de a pessoa sensata mudar a cabeça do que necessita ser “dominante” ela acaba se submetendo a aceitar as loucuras provenientes dos planos maléficos deste indivíduo doente. E mesmo que o indivíduo sensato não aceite, muitas vezes ele se força a compreender as atitudes do doente, ou melhor, iludir-se com um “lado positivo” da situação criada pelo doente (se é que existe lado positivo) ou então ele faz EPOCHÉ, suspende o juízo, não emite qualquer julgamento sobre o caso, dá uma de filósofo helenístico e procura ver a situação simplesmente como uma situação qualquer – nem boa e nem ruim – para permanecer imperturbável. O pobre faz isso para o relacionamento sobreviver, com a esperança de que as coisas melhorem mais na frente, ou melhor, que o doente se trate e amadureça.

            É válido acreditar que as pessoas podem mudar, mas que é dose lidar com este tipo de pessoa doente, com certeza é sim. Só tente causar a impressão de que a pessoa doente não precisa s esforçar nesta busca de ser “dominante” se você tiver muita paciência, pois você vai precisar. Uma dica para quem pretende se lançar nesta empreitada é encontrar qual é o vazio desta pessoa, qual é a angústia que a afeta, qual é a dor que ela sente, o que é que baixa a estima desta pessoa a ponto de ela precisar ver os outros em momentos de fraqueza para ela se sentir forte.

b) Vamos fazer um exercício de imaginação outra vez: Imagine uma pessoa que tem uma baixíssima estima, que é calma, tranquila, não discute, tem dificuldades para tomar decisões ou questionar decisões dos outros. Meu triste a situação desta pessoa, certo? Pra ficar mais triste, imagine que ela se envolve com um doente dos que foram descritos acima! Meu Deus, salvem esta pessoa. Esta pessoa é o sonho de consumo de uma pessoa que quer se impor como dominante. O motivo é óbvio, esta pessoa não representa uma concorrência na disputa de poder dentro do relacionamento e pior, é passiva, submissa. Por favor, submisso, pelo seu bem, corra para as colinas (zoei)!

            Se uma pessoa submissa tiver tendência à depressão, esta pessoa está com os dias contados, principalmente se o doente for alguém sem escrúpulos, já pendendo para a psicopatia. Cara, a pessoa submissa com alguém deste tipo é como ratinho no recipiente de criação de cobra (com uma cobra dentro, lógico), ela está em perigo! DANGER, DANGER!

            Pode-se dizer que esta é uma relação com duas pessoas doentes, a diferença é que do submisso temos pena pela condição de coitado, de sofredor em que cairá, já do indivíduo que tem necessidade de dominação sentimos repulsa, também pela sua conduta que procura gerar sofrimento nos outros para, em contrapartida, ele se sentir bem. São, na verdade, dois extremos de comportamento. E, como se sabe, coisas extremas tendem a não serem muito boas, são sinônimo de desequilíbrio. Mais Aristóteles nesse povo, please!

  1. A RELAÇÃO NEUTRA – Quando coloco aí o termo “relação neutra” é só você pensar em neutro relacionado ao jogo de poder, ou seja, o jogo de poder não é permanente. Falo que ele não é permanente pelo fato de sempre haver em um momento ou em outro uma disputa de poder por algo dentro de um relacionamento. Porém, esta disputa não necessita ser doentia, como quando há alguém mal resolvido, cheio de patologias psicológicas desejando a todo momento colocar o outro para baixo para poder se sentir bem.

            Na relação doentia de jogo de poder existe uma guerra indireta, não declarada, e esta guerra é permanente. Os indivíduos até vivem momentos bons, possuem um sentimento bom pelo outro, mas têm sempre um pé atrás com relação a diversas coisas que deveriam até ser essenciais em um relacionamento. Essa porcaria de relacionamento você pode comparar àquela cena clássica do abraço para apunhalar pelas costas. O abraço representa o sentimento bom que ainda existe no relacionamento (depois vou explicar em outro texto sobre este sentimento), mas o indivíduo está com uma arma na sua mão, ou seja, com o pé atrás, preservando a intenção de fazer mal ao outro a qualquer momento. Isso não é sadio. Agora, para você entender esta questão do relacionamento neutro só é você partir da ideia que de estas coisas que acabaram de ser citadas não estão presentes.

            Então, o que caracteriza o relacionamento neutro?

a) Duas pessoas bem resolvidas que entram em um relacionamento com a intenção de um fazer bem ao outro. É um relacionamento composto pela ausência da necessidade de fazer mal ao outro para se sentir bem, ninguém precisa ver o outro fraco para se sentir forte, ninguém tem a necessidade de estar acima do outro para se sentir seguro na relação ou consigo próprio. Em situações esporádicas você pode ver um jogo de poder, mas com uma finalidade útil para o relacionamento, esta é a diferença entre o sadio e o doente. Por exemplo, quando alguém assume as rédeas de uma situação pensado no bem da relação, ela assume uma posição de “superioridade” no sentido de liderança para guiar a relação para um caminho positivo. Logo após, o indivíduo abandona a sua posição de superior, pois não tem a necessidade de permanecer nesta condição, pois isso não representa nada para ele, pois isto não acrescenta no seu bem estar. Esta pessoa já é suficientemente resolvida consigo própria, segura, equilibrada a ponto de não necessitar de autoafirmação. Uma posição de dominante para alguém deste tipo é algo banal.

            Que lindo, não é? Eu caso agora com alguém deste tipo (brinquei, estou comprometido). Mas veja bem, John Locke ficaria orgulhosíssimo desta pessoa, pois ela respeita um direito inalienável do ser humano que é a igualdade. Não deve ser lindo duas pessoa convivendo como iguais, sem uma precisar do mal da outra para se sentir bem? É Liiiiiindo, cara.

b) Já tratei da relação de duas pessoas sadias e vimos como seria bonita, uma be-le-za. No segundo caso, quero tratar da relação de uma pessoa sadia com uma submissa. Cara, uma pessoa sadia como a que eu descrevi (segura, resolvida, equilibrada e que respeita a igualdade) pode ter um relacionamento maravilhoso com uma pessoa submissa também. A diferença crucial entre o caso da pessoa bem resolvida com a pessoa doente mental é que a primeira não terá necessidade de piorar a situação da pessoa submissa, com baixa estima e com dificuldades de defender os seus ideais. Uma pessoa bem resolvida pode se encaixar perfeitamente com uma pessoa submissa, principalmente se a bem resolvida buscar compreender bem a submissa e procurar meios de sanar as suas deficiências.

Espera-se que a bem resolvida conduza a relação, não por ela se impor como dominante, mas pelo fato de o outro se auto colocar como não dominante, numa posição de “inferior”. Como o outro que convive com o submisso não possui a necessidade de se afirmar, espera-se que ele não se deixe seduzir pelo poder que lhe foi concedido espontaneamente pelo submisso e não procure meios de “pisá-lo” ou afetá-lo negativamente de alguma forma. Cara, se tu é bem resolvido, respeita os submissos, eles merecem alguém que cuide deles!

Com isso, imagino que deu para esclarecer o que é o tal do relacionamento neutro e como ele se manifesta em contraposição ao relacionamento doentio das pessoas que possuem a necessidade de estar acima do outro na relação. Neutralidade é basicamente a ausência de jogos de poder com fins negativos, que fazem mal ao relacionamento. Vimos também que é possível alguém ser a cabeça do relacionamento e isso não prejudicar em nada o mesmo. Para tanto, é necessário que o indivíduo tenha como objetivo o bem estar do relacionamento e que ele não se deixe seduzir pelo poder que ele possui no momento. Isso é o que se espera de uma pessoa bem resolvida, segura e equilibrada.

Vale a pena deixar alguns conselhos aqui no final:

  1. Se você for sensato, evite pessoas doentias.
  2. Se você pretende mudar a cabeça de uma pessoa doentia, boa sorte.
  3. Se você for uma pessoa doentia, procure tratamento psicológico.
  4. Se você for uma pessoa submissa, cuidado com quem se envolve.
  5. Se você é uma pessoa bem resolvida, segura e equilibrada: PARABÉNS, você é ótima para se relacionar. Não se iluda com o poder.

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(Anderson Yankee)

Uma resposta em “OS JOGOS DE PODER EM RELACIONAMENTOS CONJUGAIS: SOBRE AS PESSOAS QUE TÊM A NECESSIDADE DE SE SENTIREM SUPERIORES

  1. Olá, querido ao ler tudo que foi mencionado em seu texto (que por sinal é ótimo), fiquei assustada e me senti confrontada a dizer isso para uma pessoa que está dentro desse perfil doentio… Mas, não sei se vale a pena, pois as pessoas nunca se enxergam como tal!:/

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