QUANDO MENOS SE ESPERA (REVIRAVOLTAS)

1231861908_sonhos

~:::~

Este garoto era cheio de anseios com relação ao mundo dos amantes. Anseios de caráter tradicional. Apreciava a beleza e bom comportamento das fêmeas, assim como a inteligência, a perspicácia e o bom senso. Ele seguiu grande parte da sua juventude com a ideia fixa de que sua companheira teria tais qualidades que ele apreciava e determinou que ela seria de tal modo e não de outro modo qualquer. Ele acreditava que, apesar de conviver com pessoas, mais especificamente mulheres, que não apresentasse em si os valores que ele queria, ou então só apresentasse um ou outro destes valores, em algum lugar do enorme mundo haveria alguém que fosse como ele queria. Este garoto era bem determinado e não vacilava em cair em tentação e se entregar impensadamente a um relacionamento com qualquer fêmea “incompleta”.
Este garoto, costumeiramente, escutava comentários desmotivadores dos seus amigos: “Pô cara, ninguém é tão perfeito assim como você quer”; “Ah, o que vale é fazer bem, se a pessoa te faz bem está tudo certo”; “kkkkk, é difícil”. E esses comentários, na medida em que se multiplicavam, iam deixando o garoto sonhador cada vez mais desmotivado na sua busca, ele começava a considerar que seus amigos estariam certos de que ele certamente não encontraria uma pessoa como queria, com tantas qualidades, alguém “tão perfeito”.
– Talvez eu esteja querendo muito mesmo, talvez o que valha a pena não é em si a inteligência da pessoa, visto que há muitas pessoas inteligentes com alma obscura, de comportamento desagradável. Olhando desta maneira – tendo em vista que o mau comportamento não me é admirável – acho que o que eu quero não é em si alguém que possua grande inteligência, mas sim alguém de um bom comportamento, alguém de alma limpa e suave, ou como os meus amigos dizem: “alguém que me faça bem”. Quanto a perspicácia, concluo que também ela não é essencial dentro desta questão, pois esta pode ser usada para enganar e manipular os outros e, sendo isso algo que eu também não desejo, coloco o caráter da pessoa outra vez em primeira instância, visto que é ele quem determinará para que a pessoa utilizará a sua perspicácia. Por Zeus, vejo que meus desejos eram cegos, que eu tanto estava a almejar coisas simplórias, contingentes, secundárias. Quanto eu perdi neste tempo que cultivei tais volições? Incontáveis pessoas passaram pela minha vida e eu simplesmente não as olhei com bons olhos por estar com a visão embaçada por desejos sem fundamento. Quantas mulheres eu desdenhei por estar cego, belas mulheres eu desdenhei. E o que posso pensar a respeito da beleza? Seria a beleza também algo atrelado a um tolo desejo? A beleza também não impede que alguém seja de mau caráter, pois ela é só uma manifestação da aparência da pessoa; E uma pessoa de aparência agradável pode enganar, omitir e mau tratar qualquer um – E isto é algo que eu não aprecio. No fim o caráter ainda prevalece como essencial, no fim meus amigos estavam certos. Quão bobo eu fui por todo este tempo.
Certo dia este garoto conheceu uma garota com coração de mãe, que dá atenção, que fala e escuta na hora certa, que era doada, que o mimava e o perdoava por suas falhas com todo carinho. Ela visivelmente gostava dele e teve a sorte de aparecer na vida dele em um momento que ele passava por auto-questionamentos a respeito da companheira que queria para si. Ela, como se fosse trazida pelo destino, o fazia muito bem e, apesar de não ter tanta perspicácia e auto grau de inteligência, era de aparência agradável e de um comportamento bom, um comportamento capaz de fazer bem a qualquer homem que pretenda ser feliz em vida. Sem saber a garota ofereceu ao garoto a oportunidade de refletir sobre seus questionamentos na prática.
– Certamente é bom ter alguém ao teu lado que te faça sentir bem, alguém que te dê atenção, que se doe a você, que te faça coisas que te faz sorrir, coisas cheias de sutilezas, mas sutilezas tão significativas. Isso é bom mesmo. Acho que esta era a prova definitiva de que eu estava errado quanto aos meus desejos anteriores, vejo agora que “uma pessoa que te faça bem” é o suficiente a querer para um relacionamento.
E naquela noite eles tiveram a conversa:
– Tu bem sabes que te admiro e isto me faz querer você ao meu lado garoto.
– Bem sei disso. E deves saber também que teu modo de proceder comigo me deixa feliz e que quero mais disso.
– Então ficas ao meu lado.
– Eu estou ao teu lado!
– Fica comigo em condição de meu namorado e poderemos assumir para todos que temos afinidade um pelo outro e desejamos ficar juntos sendo um do outro com votos de fidelidade.
– Tu ficaste sabendo que eu aprecio a tua companhia e desejo desfrutar cada vez mais desse teu modo de me fazer bem. Ora, se já estamos juntos e isso é agradável a ambas as partes, por que deveríamos tornar isto público? Não é suficiente para tu que isso seja compartilhado entre nós dois, visto que é somente a nós dois que isto convém?
– Entendeste mal rapaz. Tua companhia e teu proceder comigo são suficientes para mim, não há coisa que eu mais aprecie. Mas isso é tão grande dentro de mim que eu quero gritar para todo mundo e quero que todos saibam que têm uma vida incompleta, pois completa é uma vida como a minha, que tem tu como bem mais precioso. Tu e teu amor é o que torna a minha vida completa.
– Isso é belo e me deixa radiante de alegria, pois sei que tu aprecia a mim. No entanto, o mais importante é que isso que é tão bom que proporcionamos um ao outro, esse modo de proceder que temos para com o outro seja perpetuado. Ninguém precisa invejar a nossa vida, só precisamos que estejamos satisfeitos um com o outro. Portanto, que continuemos sendo felizes um com o outro do mesmo modo que estamos sendo agora.
– Então não és de acordo com meu propósito? Não queres que todos saibam que aprecio a ti e aprecias a mim da maneira mais invejável do mundo? Será que tens vergonha de mim?
– Certamente não tenho vergonha de ti. Só não creio ser algo essencial o que tu queres.
– Essencial? Não é essencial que tudo o que façamos seja essencial, não é essencial que tudo que queiramos seja essencial. Não há mal algum em querermos coisas contingentes somente por que aquilo nos deixará bem, ou até mesmo que aquilo seja só um capricho. Pelos deuses, isto é algo que eu quero e que irá me deixar feliz, isto basta para que seja feito. Se querer falar de coisas essências eu te digo, concretizar certas coisas não essenciais que estão de acordo com o meu desejo me deixa feliz; Ora, ficar feliz é algo essencial para mim; logo, concretizar certas coisas não essenciais que estão de acordo com o meu desejo é algo essencial. O que me dizes?
– É infalível a tua argumentação. Convenceste-me de que não há mal algum em fazer certas coisas não essenciais. Certamente, se isso deixa a pessoa feliz é algo bom, eu provo disto contigo, tu me deixas feliz e isso é bom.
– Então, és de acordo com meu propósito? Todos devem saber que aprecio a ti e tu me aprecias da maneira mais sublime?
– Não quis dizer isso. Concordei contigo por tua argumentação ser infalível e disto não posso fugir. Porém, minha ação não será a de expor a nossa felicidade, mas pelo contrário, será de assumir a nossa ruína.
– Caíste em insanidade? Como isso é possível? Estás convencido de que não há problema em expormos a nossa felicidade e, por não conseguir lidar com isso irá arruinar isso que temos de tão bom? Será que podes pelo menos assumir que eu estava certa a respeito da tua vergonha?
– Não caí em insanidade, mas digo que caí no aposto disso. Tuas palavras iluminaram a minha razão com uma chama nas trevas. Só tu foste capaz de, apoiada na lógica, livrar-me do senso comum.
– Entendo-te, mas não encontro sentido no que dizes.
– Tempo atrás eu tinha certos desejos com relação à pessoa com quem passaria os meus dias em companhia. Desejei coisas que julgaram ser impossível de ser encontradas simultaneamente na mesma pessoa. Julgaram-me insano por me apegar a estes desejos e não aceitar de bom grado menos do que eu almejava. A lógica do tempo me convenceu de que meus desejos eram insanos e que eu deveria me ater a buscar o que era essencial: alguém que me fizesse bem (feliz), visto que outros atributos como a beleza, a inteligência, perspicácia, o bom senso não se mostravam essenciais, e assim eram dispensáveis. Abandonei meus antigos desejos contingentes e me concentrei somente no mais essencial, encontrar alguém “que me fizesse bem”. Agora, mostraste-me que meus antigos desejos estavam de acordo com um desejo essencial, o de ser feliz. Devolveste-me a racionalidade e, com ela, a esperança de encontrar o que eu queria. A partir de hoje dedicar-me-ei a encontrar esta pessoa, se cessar.
– Quer saber, seu desejo pode ser essencial para você, ele certamente está de acordo com o desejo mais essencial da vida de todas as pessoas, que é ser feliz. Mas… quer saber… se seus amigos disseram que você nunca encontraria uma pessoa como a que você quer foi por que eles são dotados de bom senso, essa pessoa que você procura pode nem existir, você almeja perfeição em um âmbito onde a imperfeição é inerente. Pobre homem, certamente sofrerá por causa de um desejo bobo e o apego a princípios fundamentais. És tolo. Nunca encontrarás esta pessoa.
– Estás enganada. Falas isto envolvida de mágoas. Abriste mão da tua razão e te deixaste levar pelos sentimentos. Veja bem: Tu me tiraste das trevas e iluminaste a minha razão, isto mostra que tens bom senso em grau elevado, foste perspicaz e inteligente na hora de argumentar a respeito do que tentavas provar, se contigo estou é por que tenas aquilo que passei a julgar mais essencial num companheira, ou seja, fazes-me bem, fazes-me feliz. E quanto à tua beleza, ela é incontestável. Provo assim que estavas errada ao dizer que eu nunca encontraria a pessoa que desejei. Foi tu mesmo que eu sempre quis, foi por você mesmo que eu sempre esperei.
– É com muita felicidade que escuto estas palavras. É com muito pesar que escuto estas palavras. A pouco disseste que assumirias a nossa ruína.
– Tolo fui. Imaginei que quando encontraria esta pessoa ela fosse perfeita, livre de qualquer arbitrariedade. Mas aqui estou na frente dela e acabei de presenciar um erro provindo dela. Ora, se até a mais perfeita das criaturas pode errar, então eu que não estaria livre disto.

(História sem fim)

_____________________________

~:::~

(Anderson Yankee)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s