COMO DEFINIR O QUE É UM AMIGO CONSIDERANDO OS MOMENTOS BONS E OS DE ADVERSIDADE

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       Há algum tempo atrás, cerca de um mês, eu recebi uma pergunta no ask.fm a respeito de amizades, se eu tinha muitos amigos, se eu tinha muitos amigos com quem poderia “contar”. A minha vontade foi de responder: Vários, dezenas. Mas eu sabia que esta resposta não seria entendida por quem estivesse lendo aquilo, pois o sentido que eu coloco na resposta requer um entendimento do que eu considero “poder contar”.

      Esclarecendo a questão, eu entendi bem que a pergunta que eu recebi tinha a intenção de, na verdade, questionar a respeito de quantas pessoas eu poderia contar nos momentos difíceis. Pois, se olharmos bem, esta é a visão comum de “amigo” que é compartilhada na nossa cultura: Aquele indivíduo com quem podemos contar nos momentos bons, na alegria, mas acima de tudo nos momentos ruins, de dificuldade. E ainda é dito mais: prova ser amigo verdadeiro aquele que não exita em estar conosco nos momentos difíceis, nas tempestades da vida, na dor, na angústia, na depressão. Estes são os pre requisitos que são estabelecidos atualmente para um indivíduo provar ser amigo de outro. É muito bonito isso, mas será que não é insuficiente para definir um amigo?

       Imagino que, assim como eu, muita gente por aí conheça muitas outras pessoas e dentro deste grupo de pessoas conhecidas há pessoas que apresentam um modo de se comportar diferente, gostos diferentes, anseios diferentes, maneiras de enxergar o mundo diferentes; enfim, são pessoas em si diferentes.  A nível de informação, dentro desta relação, as pessoas e seus conhecidos realizam determinadas atividades de acordo com um consenso estabelecido entre ambos. Ou seja, pelo fato de o ciclo de amizades de uma pessoa incluir pessoas diferentes, não fazemos sempre as mesmas coisas com todas as pessoas, fazemos o que está de acordo com os gostos em comum ou com um consenso estabelecido entre ambas as partes. Por exemplo, com as pessoas mais “festeiras” costumamos frequentar festas, já com pessoas que não gostam tanto de festas realizamos outras atividades que esteja de acordo com os nossos gostos ou com o gosto de alguém, desde que haja um consenso.

       Resumindo: Até agora vimos que estamos tratando da temática da amizade. Vimos que em uma visão “tradicional”, amigo é aquele indivíduo que acompanha o outro nos momentos bons e ruins da vida, mas acima de tudo nos momentos ruins. Para esta questão eu deixei uma pergunta: Isto é suficiente para definir uma amizade? Depois dei algumas considerações básicas sobre as amizades, de maneira geral; Nosso ciclo de amizades é composto de pessoas diferentes, com gostos, anseios, maneira de ver o mundo diferente. Falei também que nos relacionamos de maneira diferente com diferentes amigos, que fazemos coisas diferentes com diferentes amigos.Vale lembrar também que eu disse que poderia “contar” com vários amigos, e realmente são muitos.

       Vamos pensar um pouco sobre o que já foi dito e levantar outras questões. Não será cobrar demais de uma pessoa estar com você nos momentos bons e ruins, mas acima de tudo nos momentos ruins para você o chamar de amigo? Creio eu que sim. Acho até muito egoísmo cobrar de uma pessoa que te aguente em um momento ruim para poder lhe dar um título de amigo. No entanto, acompanhar alguém em um momento difícil não deixa de ser uma prova de amizade. Não tem como negar que dar apoio a alguém em um momento de angústia, necessidade, sofrimento, dor, enfim, momentos negativos é um gesto de amizade. Mas acho que colocar este tipo de atitude como critério definidor de uma amizade é muito precário.

       Observe:

       Qual o sentido por trás desta atitude de estar com o outro no momento de dificuldade? É simples, o sentido é fazer bem ao outro; O indivíduo está mal por alguma adversidade e o outro o apóia para ele se sentir melhor. Repito, o sentido é somente fazer bem ao outro. Considerando o sentido desta ação abrimos espaço para que outras diversas ações possam ser classificadas como ações próprias de um amigo. Isto nos faz derrubar esta ideia de que amigo é aquele que, acima de tudo, está com o outro nos momentos difíceis.

       A ideia aqui, como já foi visto, é levar em consideração o sentido da ação que é direcionada ao outro, é como considerar a relação de amizade de um ponto de vista funcional. Imagine, por exemplo, o caso de uma pessoa que acompanha outra pessoa a uma festa aonde a pessoa não conhece ninguém, o acompanhante pode interagir com a pessoa, ajudá-la a interagir com outras pessoas, pode passar segurança, enfim, fazer bem à pessoa durante aquela noite. Neste caso, ela desempenhou um conjunto de atitudes  que fez bem ao outro, o que tem o mesmo sentido da atitude da pessoa que apóia o outro em um momento de dificuldade. O exemplo citado pode não ser um dos mais apropriados para esclarecer a questão, mas o sentido é estabelecer que é muito vago definir um amigo verdadeiro pelo fato de ele se prontificar a ajudar o outro em um momento de dificuldade. Pois, tendo em vista que o sentido disto é fazer bem ao outro, verificamos que diversas atitudes podem se encaixar nesta regra. Além disso, se prestarmos atenção no exemplo citado, o acompanhante também se prontifica a ajudar o outro de algum modo. De certo, não foi o caso de ajudar o outro em um momento de uma necessidade financeira, de uma enfermidade, de uma depressão, mas ele se prontificou a dar atenção e ajudar o outro a ter uma boa noite, ou seja, ele fez bem ao outro.

       Quanto a isso haverá quem diga: Ora, prontificar-se a ajudar o outro em um momento de dificuldade é mais difícil do que se prontificar a ajudar o outro em um momento bom, é muito mais difícil ajudar alguém que está doente do que ajudar alguém que está sadio, é muito mais difícil estar ao lado de alguém que passa por dificuldades financeiras do que estar ao lado de alguém que está rico. Certamente que sim! Para algumas pessoas é mais difícil estar ao lado dos outros nos momentos de dificuldade, mas não isso não é regra que possa ser aplicada para todas as pessoas, pois há pessoas que tem facilidade para lidar com estas situações mais difíceis. Por outro lado, há também pessoas que não tem o mínimo jeito de lidar com pessoas em momentos difíceis, elas podem até piorar as coisas por não saberem o que dizer, por atrapalharem de alguma forma, entre outras coisas. Mas vale citar também que há os que não se interessam mesmo, os que não estão nem aí, que seguem suas vidas normalmente. Em suma, há pessoas que não estão nem aí por não se importar mesmo com a situação difícil dos outros, mas também há aqueles que se importam com  situação difícil, mas que não são as pessoas mais adequadas para apoiar os outros em momentos de dificuldade; ainda neste grupo, há também os que tem vergonha de se manifestar para ajudar os outros.  Dadas estas considerações, fica a questão; Estes últimos citados (os que não são os mais apropriados para ajudar em um momento difícil e os que t~em “vergonha” de ajudar, apesar de não estarem juntos com os outros nos momentos de dificuldade, merecem ser destituídos do título de amigos?

       Creio que não, pois…

1. eles apresentam uma impossibilidade de estarem juntos com o outro nos momentos de dificuldade. E a respeito disto, consideremos também aqueles que são muito atarefados no seu dia a dia e os que também estão com problemas, estes podem não apresentar possibilidade de estarem ajudando o outro.

2. Apesar de não estarem desempenhando atitudes que façam bem ao outro, eles também não estão fazendo mal. Além disso, em outros momentos eles podem ser capazes de desempenhar atitudes que desempenham a função de fazer bem ao outro que não sejam especificamente para um momento de dificuldade.

       Em suma, vimos até agora que, através da consideração do sentido das atitudes, podemos definir como próprio de um amigo toda e qualquer atitude que faça bem ao outro; não especificamente em um momento de adversidade.

       Desta maneira, podemos acabar com a visão tradicional de o que é um amigo verdadeiro, ou pelo menos podemos dizer que ela não define bem o que é um amigo verdadeiro. Podemos afirmar agora que uma pessoa que só te acompanha em momentos de festa também pode ser seu amigo, da mesma maneira que aquele que te acompanha às festas e te acompanha também nos momentos de angústia. Podemos afirmar isto baseados na ideia de que  o primeiro amigo não é capaz de desempenhar a função de te fazer bem em um momento de angústia, mas somente nos de festas. Por outro lado, o segundo amigo pode desempenhar a função de te fazer bem nos momentos de festas e de angústia. Ainda pode haver um terceiro amigo que só possa desempenhar a função de te fazer bem nos momentos de angústia. De acordo com esta visão, tudo depende da pessoa e das suas possibilidades de realizar a função de fazer o outro bem em determinados momentos.

       Vamos pensar nisto observando cada caso.

       Caso 1. Amigos que nos fazem bem em momentos de alegria. Os chamamos de amigos por executarem a função de nos fazerem bem. Executam esta função mais especificamente nos momentos bons e, raramente (esporadicamente) ou nunca nos momentos de adversidades. Podemos contar com eles nos momentos de alegria (festas, shows, riqueza, passeios, etc.), mas dificilmente os encontraremos nos momentos de adversidade.

       Caso 2. Amigos que nos fazem bem nos momentos de adversidade. Os chamamos de amigos por executarem a função de nos fazerem bem. Executam esta função mais especificamente nos momentos ruins, de dificuldade que passamos, mas raramente (esporadicamente), dificilmente nos acompanham nos momentos de alegria. Estas pessoas geralmente são mais reservadas, não gostam muito de agitação, de festas. Podemos contar com eles em momentos de dificuldade, quando precisamos conversar, em momentos calmos ou de crise.

       Caso 3. Amigos que podemos contar em  momentos de adversidade e de alegria. Os chamamos de amigos por executarem a função de nos fazerem bem. Executam esta função independentemente dos momentos que o outro vive, seja de alegria ou de adversidade. Podemos contar com eles praticamente em qualquer momento que estamos vivendo, seja de alegria ou adversidade.

       São três tipos de pessoas que convivem conosco de acordo com as suas possibilidades, que nos fazem bem de acordo com as suas possibilidades, com as suas peculiaridades. Certamente há um ou outro tipo destes que venhamos a preferir, mas a verdade é que todos realizam o seu papel de amigos à sua maneira.

       Pensando desta maneira podemos nos poupar de criar mágoas com relação aos nossos amigos, pois pode acontecer de estarmos passando por uma determinada situação, seja de alegria ou de adversidade e esperarmos a companhia, a presença de um determinado amigo conosco, mas talvez este amigo não seja o apropriado para estar presente com você naquela determinada situação. Talvez o amigo que esperemos para estar conosco nos momentos de adversidade seja o amigo que só possa estar conosco nos momentos de festas. Da mesma maneira, pode ser que o amigo que está conosco nos momentos de adversidade não possa nos acompanhar a uma festa que queremos muito ir. Mas esta impossibilidade de nos acompanhar em uma determinada situação não destituirá o indivíduo da posição de nossos amigos.

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~::::~

(Anderson Yankee)

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