TEORIAS SOBRE A MENTE: FUNCIONALISMO [PARTE 2]

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FUNCIONALISMO

A partir deste ponto centremos no real objetivo deste texto, que é descrever o que é a Teoria Funcionalista da Mente de uma maneira mais aprofundada do que as teorias acima descritas. Foi anteriormente supracitado que o Funcionalismo apresenta algumas aproximações e distanciamentos com relação às teorias descritas acima. Neste sentido, para sabermos o que é o Funcionalismo é importante sabermos o que ele não é,ou então, de quais teorias ele se distancia ou, em outras palavras, de quais teorias ele recusa algumas postulações e conceitos.
De início, o Funcionalismo recusa a base da teoria dualista e as suas implicações e questões mais importantes. A teoria funcionalista não está atrelada a questões do tipo: De que a mente é feita? Ela é diferente do corpo? De que maneira estas substâncias se relacionam? Podemos dizer que o Funcionalismo está para além destas questões. Da mesma maneira, o Funcionalismo não está atrelado a questões da Teoria da Identidade (Materialismo Reducionista). Pensar em uma mente, seja ela idêntica ou não ao nosso cérebro (substância física), não é um problema fundamental do Funcionalismo. Estes são problemas de caráter secundário, contingente. Então, estabelece-se aqui que não é uma preocupação dos funcionalistas qual é o tipo de matéria de que a mente é feita (seja ela física ou não-física), assim como se esta matéria é diferente da matéria corporal (se o cérebro é a mente ou se são coisas distintas) ou qual o modo de interação que estes dois elementos mantêm entre si.
Então qual é a preocupação do Funcionalismo? Se prestarmos bem atenção veremos que o nome funcionalismo é derivado de “função”, e esta é uma palavra-chave para entendermos o que concerne a teoria funcionalista. Função, de acordo com um dicionário básico da língua portuguesa é “1. Ação natural e própria de qualquer coisa; 2. Atividade especial; serviço, atribuição.”, ou seja, a função de alguma coisa é exatamente aquilo que ela faz. Mas é sabido que para uma coisa executar determinada função ela precisa de uma “programação”, de uma determina estrutura que lhe permita executar tal função. Assim, podemos entender a função de alguma coisa – como já foi explicitado no significado dado pelo dicionário – como atribuição a qual a coisa foi destinada a executar. Voltando a questão que foi lançada no início do parágrafo, a preocupação dos funcionalistas é com a função que a mente desempenha.
Tomando um exemplo para esclarecermos esta questão da função de uma coisa e a preocupação dos funcionalistas, pensemos em um objeto qualquer, um freezer. Este freezer é um eletrodoméstico que possui um “corpo”, que é justamento a sua composição material, o que inclui uma forma de metal e todo um aparato tecnológico. Este freezer também possui um programação para executar uma função básica, que é manter o seu interior em uma baixa temperatura. A função do freezer, como foi dito neste exemplo, é manter o seu interior em uma baixa temperatura, isto é o que importa para os funcionalistas, esta função que é executada pelo objeto. Além de cumprir essa função, sabemos que o freezer recebe uma programação para executar tal tarefa e que a sua composição envolve um aparato tecnológico e uma forma determinada de metal. Estas últimas considerações são consideradas contingenciais para os funcionalistas, ou seja, o que possibilita que o freezer execute tal função, qual a composição material do freezer, isso tudo não passe de questões arbitrárias.
Ademais, se pensarmos bem ainda quanto ao caso do freezer, temos que levar em consideração que não basta somente uma programação em um corpo físico para o eletrodoméstico desempenhar a sua função, antes ele precisa de um comando para executar a sua função, que poderia ser o simples ligar do mesmo na rede elétrica ou então o apertar de um botão para ligar o mesmo. Transportando esta questão do exemplo para tratarmos da mente em si – que é a proposta do Funcionalismo – nossa mente executa determinadas funções, mas não simplesmente as executa por acaso, ela precisa antes de uma provocação externa. Então, uma função envolve uma provocação externa, uma entrada (input) de dados sensoriais e um retorno a esta entrada, uma saída (output) em forma de comportamento.
Neste sentido o Funcionalismo se aproxima bastante do Behaviorismo, já que este também rejeita as questões que o Funcionalismo rejeita e tem basicamente as mesma preocupações, que se situam não no modo como a mente funciona ou do que é feita, mas simplesmente se atém a observar o comportamento, a manifestação da mente. Retomando o Behaviorismo nas palavras de Maslin (p.106) esta teoria “sustenta que afirmações sobre a mente e estados mentais vêm a ser, após análise, equivalentes a afirmações que descrevem o comportamento público real e potencial”. Ou seja, falar da mente ou de estados mentais é falar sobre o comportamento das pessoas, sem o uso de termos intencionais. Para compreender este comportamento deve se ter em mente que agimos de maneira a dar respostas condicionadas a determinados estímulos que nos são dados. Isso é verificado tanto nos humanos quanto nos animais. Os behavioristas especificam bem que para um tipo físico verificaremos determinados padrões de comportamento, então para compreender a mente (comportamento) animal basta observar o comportamento animal e o mesmo vale para os humanos. É mister lembrar que esta observação deve sempre ter em vista a relação de input e output (entrada de dados sensoriais e saída de comportamentos condicionados). Verificamos que a teoria funcionalista se embasa em basicamente este mesmo conjunto teórico. No entanto, o Funcionalismo tem um algo a mais, algo que a torna mais popular principalmente entre os filósofos – pensadores que usam o método da especulação. Vale destacar que o Behaviorismo também é bastante popular como método na Psicologia, inclusive ele é considerado como ciência do comportamento animal e humano; Mas como teoria para compreender a mente ele se mostra falho.
E o que seria o algo a mais que o Funcionalismo possui e que o torna mais viável que o Behaviorismo na empreitada de compreender o discurso sobre a mente? A teoria funcionalista acrescenta que na relação de input e output o estado mental envolvido se relaciona também com outros estados mentais que se manifestam naquele momento. Isso representa uma inovação pelo fato de que esta relação de estados mentais com outros estados mentais dá margem para que o comportamento que virá como resposta a entrada de dados sensoriais não seja uma e somente uma sempre, ou seja, a reação pode ser diversa da esperada. Então, com a análise a posteriori da resposta se poderá compreender o evento mental, tendo em vista o input, o estado mental em questão, outros estados mentais e o output. Podemos fazer uma analogia com um software que colocamos uma determinada programação e ele executa determinado comando, então mudamos a sua configuração e ele executará o comando de outra forma ou dará outra resposta. Podemos ainda tomar o exemplo de uma pessoa que recebe a notícia de falecimento de alguma pessoa próxima a ela; de acordo com nossas raízes culturais esta é uma notícia de caráter negativo, então é esperado que a pessoa que recebeu a notícia demonstre um estado mental de tristeza. No entanto, digamos que esta pessoa sentisse uma raiva imensa desta pessoa que morreu, ela pode não demonstrar o que é esperado, neste caso, a tristeza. Isso demonstra a relação de um estado mental com outro estado mental mudando o comportamento que era esperado.
Neste sentido de que o Funcionalismo tem algo a mais que algumas teorias, a teoria funcionalista se mostra mais uma vez mais viável que a Teoria da Identidade quando recusa a ideia de que determinados tipos de sistemas físicos realizam determinados tipos de comportamentos. Esta concepção sustenta que, por exemplo, uma configuração física animal manifesta uma gama de determinados eventos mentais com relação aos eventos cerebrais que outro sistema físico de configuração distinta não poderá realizar da mesma maneira. Consequência disto é que a Teoria da Identidade estabelece que para entender a mente de determinada espécie é preciso estudar aquela espécie especificamente e as outras espécies devem seguir a mesma regra. O estudo das funções mentais se coloca para além desta relação de estudo tipo mental/tipo físico. Quando se estuda as funções deixando de lado as questões fisiológicas é aberto um espaço para que outros sistemas físicos de configuração diferente possam executar as mesmas funções. A exemplo disso temos os corações artificiais que executam a tarefa de bombear o sangue no organismo de quem foi implantado, mas que se o tomarmos levando em conta os seus aspectos físicos se evidenciará que ele é algo distinto de um coração original. Transportando esta questão para o âmbito da mente, Churchland (p. 68) nos dá um exemplo do caso de um alienígena: Caso encontrássemos um alienígena com uma constituição física baseada em um elemento diferente do que constitui o nosso corpo, por exemplo o silício. Este alienígena poderia manter uma economia funcional interna que as suas relações estivessem em perfeito paralelo com as relações que definem os nosso estados mentais e assim poderia ter um estado interno que satisfizesse qualquer um de nossos estados mentais, como a dor, por exemplo. Este caso mostra esta abertura para que outro sistema físico possa manifestar um mesmo estado mental que outro sistema de configuração física distinta.
Além de abrir espaço para que outros sistemas biológicos de uma configuração física diferente da humana ou animal possa manifestar um mesmo estado mental, a teoria funcionalista abre espaço para que outros sistemas não biológicos (artificiais) possam também reproduzir estados mentais, deste que ele siga a mesma regra que foi estabelecida para o caso do alienígena. Isto é, para ter um estado mental de dor, por exemplo, a inteligência artificial deveria ter uma constituição deste estado funcionalmente isomórfico aos humanos.
Ao considerar a mente somente do ponto de vista das funções a teoria funcionalista poupa a Psicologia do trabalho de detalhar a estrutura neurofisiológica do cérebro. Pois, como já foi dito acima, a matéria constituinte da mente ou do cérebro, de qualquer estrutura que seja que garanta o funcionamento das funções mentais, tudo isso se trata de questões arbitrárias, contingentes. As funções em si não são algo imaterial ou físico, uma entidade abstrata ou um evento corpóreo; Embora não sejam nada disso as funções requerem uma corporificação para se realizarem, ou seja, um mecanismo físico.

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~X~ 

(Anderson Yankee)

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Uma resposta em “TEORIAS SOBRE A MENTE: FUNCIONALISMO [PARTE 2]

  1. Estamos, em todos os momentos do dia de todos os dias, envolvidos com teorias da mente, inferindo estados mentais alheios e refletindo sobre nossos próprios. Nossos estados mentais, assim, além de dividirem um mecanismo comum de procedimento, dividem o mais importante: formas e conteúdos.

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