Andinho e Yankee [Eu e meu outro] – PARTE 1

As luzes da casa já estavam apagadas, somente a luz do quarto estava acesa, já era meia noite e vinte e cinco. Na beira da cama estava Andinho, sentado a pensar na sua condição, nos acontecimentos recentes da sua vida, e antecipando possíveis acontecimentos. Seu estado não era dos melhores, ele se encontrava de cabeça baixa, meio que segurando lágrimas, lutando consigo mesmo para aguentar uma espécie de dor, uma enfermidade que acometia a sua alma. Ele vestia somente um calção de esportes e uma camiseta, o traje comum que ele costumava dormir. Dava para escutar o seu celular vibrar por algum tempo, começaram a ligar um pouco antes de ele sentar ali, e ele até viu, mas preferiu não interromper-se.

Andinho também percebeu que um pouco depois de ele sentar ali o Outro que é ele mesmo, Yankee, tinha se prostrado em sua frente. Ele olhou de relance e viu que Yankee estava de braços cruzados, como se não quisesse ser afetado pelo estado de Andinho. Ele estava bem vestido, de suéter grafite de gola rulê, um paletó de tweed Harris, uma calça cáqui e sapatos fechados de couro de cabra, seu traje padrão de ostentação. Yankee tinha uma expressão de decepção, como se sentisse pena e ao mesmo tempo desprezo por Andinho. Ele balançava a cabeça lentamente, como se quisesse dizer algo.

Yankee se dirigiu a Andinho puxando a cadeira da escrivaninha, colocou a cadeira na frente dele e sentou-se cruzando as pernas. Logo após colocou a mão direita no ombro de Andinho e disse:

– Quer bater um papo, companheiro?

– Não, obrigado! Estou bem!

– Seu conceito de bem é bastante fora do comum, filósofo. Ironizou Yankee com meio sorriso.

Andinho, ao perceber a ironia de Yankee, levantou a cabeça com cara de poucos amigos e retrucou:

– O que você faz aqui? Afinal, já faz um bom tempo que você sumiu, alegando que aqui essa vida não era a que você queria, pois tudo era muito monótono. Arrependeu-se ou veio só rir de mim como você sempre faz quando aparece assim, repentinamente?

– Tenha calma, amigo. Uma pergunta de cada vez. Não sabia que você tinha tantas mágoas de mim.

– Você é sínico. Disse Andinho com uma expressão de dor.

– Não, eu sou prático, acredite, é diferente.

Neste momento Andinho suspirou e baixou a cabeça outra vez, em seguida balançou-a  e levou as mãos ao rosto.

– Eu vim para ficar, disse Yankee.

– Você não tem direito nenhum de ficar aqui. E mais, não é a primeira vez que você diz isso, é sempre assim, “eu vim para ficar”, blá, blá, blá e some sem dar nenhuma satisfação. Você achou mesmo que você poderia chegar aqui e tudo iria ficar bem, que eu iria aceitar normalmente? Seu cinismo é sem tamanho.

– Andinho, você precisa de mim.

– Muitas vezes eu precisei de você, mas onde você estava? Eu até te procurei algumas vezes, mas onde você estava? Onde estava a sua preocupação comigo?

– Andinho, eu não quero ser ignorante como você. Pare de chorar como uma garotinha e me escute.

Andinho respondeu com uma expressão de desprezo, seguida de um suspiro.

– Você sempre acha que sabe de tudo, não é. Aparece com esse ar de superior, de rebelde, de insensível. Na verdade você é um sádico, gosta de brincar com as pessoas.  Esconde-se aí atrás desta pompa, de toda esta ostentação querendo intimidar as pessoas. Mas comigo isto não funciona, eu te conheço. Disse Andinho.

Neste momento Yankee levantou-se, empurrou a cadeira e esbravejou:

– Eu cansei de você, mais uma vez. Olha o seu estado! Está aí se lamentando, derramando lágrimas sem parar. Para com isso! Seu fraco! Tudo isso para mim é a maior baboseira, este seu estado, as coisas que você dá valor, esse seu jeito, mas infelizmente isso me afeta, pois eu também sou você. Reage, levanta daí.

Andinho calou-se por alguns minutos, talvez as palavras de Yankee estivessem ecoando na sua cabeça. Após algum tempo ele parecia mais calmo. Então perguntou:

– Mas, afinal, qual é o meu jeito?

– Andinho, em poucas palavras, seu jeito não é adequado à realidade do mundo em que vivemos. Você é sonhador, você acredita nas pessoas, só você consegue ter uma confiança pura nas pessoas, você acredita em valores, você acredita nas coisas absolutas, você vê bondade nos outros, enfim, você vive no polo da nobreza de alma. Mas o mundo nunca corresponde às suas expectativas, já parou para pensar nisso. E a pior notícia que tenho para você é que o mundo não está errado, é você que está equivocado, pois o mundo é maior que você, então você tem que se adequar a ele e não ele a você.

– Mas eu não pretendo mudar! Disse Andinho esbanjando calma.

– Idiota… Não se trata de uma questão de querer, é de necessidade…

– Desista Sr. Yankee, é isto que me faz ser o que sou, todas as minhas características me tornam único, além do mais, o mundo é o mundo e está em constante mudança, eu sofreria mais tendo que me adequar a ele em todo instante que ele resolve passar por uma metamorfose. Disse Andinho convicto.

Após o belo discurso de Andinho, Yankee sorriu com suprema ironia, deu uma pequena volta olhando para cima, mãos no bolso da calça. Sorriu um pouco mais alto e disse:

 […] Continua.

 

~X~

(Andinho Yankee)

Uma resposta em “Andinho e Yankee [Eu e meu outro] – PARTE 1

  1. HAHA quem diria, eu não fui a única a pensar nisso!
    Vivem brigando; as duas, Ana e Flávia.
    A Ana é como o Andinho, essa gosta de arte, música, essa quer trabalhar em algo que exija criatividade, ter um cachorro e um gato, sorri o tempo todo e olhar as pessoas nos olhos. Ser reconhecida por sua doçura e fé. – Essa acha importante cursa filosofia e entender a vida e as pessoas.
    Mas, a Flávia, haha ri de tudo isso. Surge em algum momento de inspiração ou tristeza, ou mesmo de transcendência, acaba com a festa. Essa se pergunta “Quem as pessoas pensam que são? Para quererem me ensinar alguma coisa quando suas vidas não passam de caos?”. Essa insulta até a alma, não há nobreza aqui, o poder é o que importa, fazer o que se quer é o que importa. Independer é seu objetivo.
    Quem vence? Nenhuma das duas, terão que aprender a andar lado a lado, porque eu Ana Flavia, não vou abrir mão de nenhuma delas.

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