Relação entre Causa/Efeito e Identidade em Hume.

David Hume, no Tratado da Natureza Humana, dentre outras questões, faz uma análise a respeito da nossa ideia de causalidade, ou da relação de causa e efeito. Em outra oportunidade eu já tratei desta temática, basta ler o texto “Causalidade, segundo Hume”. Neste texto eu disse que:

“[…] Para fazer a analise desta questão, Hume a considera tanto no âmbito da realidade quanto no âmbito da mente humana […]”.

“[…] Primeiramente, é sabido que todos os nossos raciocínios seguem uma relação de causa e efeito. Isso é visto quando inferimos a existência de um objeto pela existência de outro, ou então o um evento como decorrência de outro […]”.

“[…] Como, por exemplo, o movimento de uma bola de bilhar que é ocasionado pelo choque com outra, Hume dirá que três elementos se encontram presentes neste acontecimento. O primeiro elemento é a contigüidade no tempo e no espaço; pelo fato de os objetos estarem situados juntamente no tempo e no espaço é possível ocorrer o choque e o conseqüente movimento da segunda bola. Por conseguinte, a prioridade no tempo da causa também permitirá o evento, pois é evidente que o movimento que foi a causa antecede o efeito. Ademais, a conjunção constante entre a causa e o efeito também está agregada ao caso. Esta conjunção é o que liga a causa e o efeito, vale dizer, uma determinada causa em determinadas circunstancias gerará comumente um mesmo efeito […]”.

“[…] Para se analisar como se dá a inferência, partimos da proposição supracitada de que os nossos raciocínios obedecem à relação de causa e efeito. Nós inferimos, deduzimos que o efeito se segue da causa, vale dizer que, necessariamente. Esta dedução funciona de tal modo: eu vejo o objeto em determinada situação e, por experiência, deduzo o seu efeito; é assim que se dão os raciocínios, inclusive as crenças na história e filosofia, salvo a geometria e a aritmética […]”.

Deste modo, nada de ontológico há na relação de causa e efeito, bem como nas nossas inferências lógicas, as quais ocorrem na nossa mente. Pois:

“[…] Com base na crença da uniformidade da natureza é que são produzidos os conceitos, ou seja, todos os argumentos são baseados nela. O que não é considerado é que há a possibilidade de o curso da natureza mudar e não há como provar que ele seja o mesmo sempre. Pois se alguém quiser provar o curso uniforme da natureza essa prova só poderá ser de caráter empírico, mas como a empiria só pode dizer do passado, não há como ter certeza desta absoluta uniformidade natural. Assim, os argumentos são baseados apenas na suposição da semelhança, deste modo, os assumimos sem qualquer prova […]”.

Resta-nos, assim, apostar no futuro no que diz respeito às relações em que acreditamos. Mas é importante saber que elas não são absolutas e acreditar no contrário é enganar-se.

Em suma, o conceito de causalidade, tanto na nossa mente quanto na realidade, trata-se de um salto indutivo que damos através do hábito, ou seja, estamos tão habituados a presenciar um efeito seguindo de uma causa que ao vermos a causa em determinadas circunstancias, por indução, deduzimos logo o efeito habitual. Mas Hume mostra que só fazemos isto pela semelhança que nos aparece, pois tendemos a reunir ideias semelhantes.

Hume também nos mostra em seu livro que a nossa ideia de Identidade é pura ficção, algo que se for analisado à risca se mostra inconsistente. E o próprio Filósofo se ocupa de fazer esta análise baseado nas mesmas proposições que usa para mostrar que a nossa ideia de causalidade é uma mera criação da nossa mente e, falando de maneira mais radical, uma ilusão.

Para Hume, a ideia de identidade, tão defendida por filósofos tradicionais como o grande Aristóteles, trata-se somente de um agrupamento de ideias semelhantes, o qual é feito pela nossa mente. Este agrupamento nos dá uma ideia de Unidade da Identidade, no entanto, esta Unidade ilusória na verdade é uma multiplicidade. A multiplicidade de que falo é de ideias, que podemos compará-las como características de um individuo ou objeto.

Imaginemos um ente, ele é um ser vivo, é animal, mamífero, quadrúpede, tem o corpo coberto por pelos e late; Imediatamente dizemos: é um cachorro. Neste caso a Identidade de que tratamos aqui é Cachorro, mas na verdade, vimos que a Unidade cachorro é simplesmente uma multiplicidade de ideias reunidas. Assim criamos a ideia de unidade por hábito, por indução. Isto é, ao vermos todas aquelas ideias, todas aquelas características reunidas dizemos: cachorro.

Esta operação de reunião de ideias é feita pela nossa mente, que tende a agrupar ideias que se encontram de algum modo ligadas por uma relação de causa e efeito. Não há nada de mais em fazer isto, é comum. A intenção de Hume fazendo esta análise é somente mostrar a realidade da nossa ideia de Identidade, que é ilusória se a consideramos na visão de Aristóteles, que a considerava substancial.

 ~X~

(Andinho Yankee)

 

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