A dor é inevitável, sofrer é opcional – Análise.

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Esta é uma frase formada por duas partículas. Analisarei e mostrarei a natureza de tal ditado e darei a fórmula que perpassa o mesmo na intenção de fornecer uma prática que vise o bem estar das pessoas após o fim de um relacionamento.

A primeira partícula “a dor é inevitável” nos remete a questão do objeto de desejo e da falta. No relacionamento conjugal, temos o outro como nosso objeto de desejo, não num sentido negativo de objeto como algo material do qual usufruímos, mas somente por que ele é algo que nos apetece, que é algo que desejamos ter perto de nós. Na medida em que o relacionamento conjugal cresce quantitativamente e qualitativamente com o tempo nós criamos laços cada vez mais fortes com o nosso objeto de desejo, o qual chamarei daqui por diante de cônjuge. Neste processo, cheiros, lugares, sons, objetos, imagens e outros fatores são incorporados à lembrança do cônjuge. Quando por algum motivo se decide findar o relacionamento é que se dará a dor citada na partícula supracitada. Esta dor inevitável se dá não pelo findar do relacionamento, mas sim em detrimento da falta de objeto de desejo. Esta falta está relacionada em maior parte pela não presença do cônjuge, mas também se relaciona pela não rotina, ou seja, pela falta de todos os comportamentos e atitudes que se tinha envolvendo o cônjuge no decorrer da relação conjugal. Esta falta dói, além disso, a presença dos fatores que foram incorporados à lembrança do cônjuge acaba enfatizando esta dor.

A péssima notícia é que este fato não acontece apenas para as pessoas que são superdotadas de sensibilidade, como os poetas, os românticos, e outros tipos conhecidos por terem as emoções em alta. Pelo contrário, isto é válido universalmente para todas as pessoas. Só estaria isento de sofrer neste caso quem de algum modo fosse despendido por natureza de desejar.

No entanto, apesar de a dor ser inevitável, ou seja, não há como fugir dela, é possível controlá-la na medida do possível e conseguir ter uma vida com qualidade enquanto ela perdurar. Isto é, é possível que vivamos bem, mesmo com a dor ativa dentro de nós. Para isso, basta que entendamos o sentido da segunda partícula da frase.

A segunda partícula da frase, “sofrer é opcional”, nos remete a entender que a dor pode ser tida em graduações distintas, como se fosse polarizada, e neste caso o polo superior é justamente o sofrimento em oposição a um polo inferior que deve ser entendido como a presença da dor de modo tal que nos permita viver com qualidade e sem sofrimento. Ademais, sentir a dor em qualquer grau que seja depende da nossa vontade, ou seja, de qualquer modo sentiremos a dor, mas se ela se mostrará de maneira intensa ou leve, isso depende em primeira instancia de nós mesmos.

É mister ter certeza antes de tudo que se quer realmente o fim do relacionamento de fato, que ele acabou e não tem mais volta e assim que se quer seguir a própria vida superando o relacionamento findado;

Como já foi supracitada, a presença dos fatores que foram incorporados à lembrança do cônjuge acaba enfatizando a dor, então o primeiro passo é evitá-los; lugares que lembra o cônjuge, assim como cheiros, músicas, objetos podem ser evitados com mais facilidade, pois podemos nos afastar deles para não sermos perturbados e a nossa dor se transformar em sofrimento. No entanto, as lembranças que provêm da nossa própria mente são mais difíceis de serem evitadas, pois não podemos – fisicamente falando – sairmos de perto da nossa mente, mas também isso não quer dizer que não podemos evitá-las; O que pode nos levar a contrariar a afirmação de que não se pode sair de perto da nossa mente.

As lembranças nos acometem em detrimento da falta, pois há uma relação intrínseca entre elas. Neste caso, para nos livrar da falta não iremos assimilá-la no sentido de ir a busca do objeto de desejo, mas sublimar-nos-emos a falta vivendo bons momentos com boas pessoas, ou seja, iremos interagir e nos entreter de modo que não dê condições de as lembranças nos perturbarem. Isto é extremamente importante para que percebamos que para além daquele relacionamento existem muitas outras coisas boas que podem nos fazer bem, nos deixar felizes, etc.

Neste processo estaremos lidando com duas grandezas, a quantidade e a qualidade. A quantidade diz respeito ao tempo – pois temos uma visão quantitativa do tempo; O tempo passa e cresce em uma relação de quantidade, isto pode ser verificado por qualquer pessoa. E a qualidade é qualidade de vida, viver sem sofrimento, com a dor no nível mais baixo. Procuraremos no decorrer da quantidade a qualidade, ou seja, buscaremos com o passar do tempo uma vida agradável de viver.

É percebível aqui que estamos lidando outra vez com uma situação onde um fator depende de nós e o outro é inevitável. O tempo é algo que não podemos controlar, ela passará na medida em que vivemos e, por cima, aliado a dor que nos acomete. É de se imaginar que sem uma ação voltada para melhorarmos a nossa condição estaremos condenados a ver a nossa dor se transformar em sofrimento na medida em que o tempo passe. No entanto, podemos agir para que isto não aconteça, basta antes de tudo entender que o sofrimento não é algo pelo qual tenhamos que passar necessariamente e para isso temos que colocar qualidade no nosso dia.

Em suma, para incorporarmos a qualidade no nosso dia a dia precisamos nos voltar para bons momentos com boas pessoas. Isto irá nos tirar da presença das lembranças que enfatizarão a nossa dor; dará-nos a impressão de ter nos afastado da nossa mente pelo fato de estarmos entretidos, distraídos com outras coisas boas. É como sobrepujar um mal estado com um bom estado superior.

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~X~

(Andinho Yankee)

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