Problemas sobre o amor – Natureza e aplicação.

_________________________________________________________________________

O presente texto faz parte de um trabalho mais mais abrangente com questões básicas acerca do sentimento chamado amor, nesta primeira parte você encontra reflexões sobre o que seria o amor, além de algumas reflexões sobre o amor aplicado em uma relação conjugal. O texto completo pode ser obtido com o autor: andersophia@gmail.com

_________________________________________________________________________

Amor na prática

O amor é um dos temas mais comentados no mundo. As pessoas falam de amor, as músicas e poesias trazem comumente este tema nas suas composições, até cientistas já tentaram desvendar os mistérios deste sentimento tão peculiar. No entanto, este é um tema que pode ser visto como algo confuso e obtuso, que as pessoas ao tentarem tratar dele acabam se vendo como num “tatear no escuro”. Isto acontece por que ele é justamente um sentimento, logo, algo abstrato; e o abstrato é relativamente ponderável, nunca absoluto.

O amor não se toca, o amor não se vê, não se cheira, não se escuta, ou seja, ele não é sensível. David Hume nos diria que o amor não faz sentido por não poder de maneira alguma ser percebido através dos nossos sentidos, por não possuirmos nenhuma impressão sobre ele que corresponda a algo na experiência. Este é um resumo geral da idéia de Hume, defensor do Empirismo.

Ora, mas o que dizer do amor? Afinal nós o sentimos, pressupomos que algo que esteja presente na nossa vida seja o amor. Julgamos sentir amor, desejamos o amor de outrem. Podemos encontrar em Hume ainda uma resposta possível para esta questão. Em seu livro “Tratado sobre a natureza humana” Hume faz uma análise da idéia de identidade, e podemos observar que a idéia de amor pode se formar da mesma maneira que esta idéia. Neste caso, a nossa idéia de amor não existiria, seria uma pseudo-idéia (idéia falsa) originado por um movimento da nossa própria mente e que acaba nos enganando.  Acontece que ela tende a unir idéias que são semelhantes e dá unidade a estas idéias, daí acabamos usando uma menção lingüística para esta unidade – como um conceito – no sentido de facilitar a comunicação. Se não fizéssemos isto teríamos que citar todas as idéias pertencentes a um fenômeno, em vez de usar uma palavra só. Por exemplo, um indivíduo tende a se aproximar de uma pessoa, ele tende a permanecer com tal pessoa, investe com cortejos e declarações na relação, protege e cuida da outra pessoa, fixa relacionamento, constitui família, entre outras ações, daí inferimos o sentimento amor. É um exemplo simples, e uma analogia básica ao pensamento de Hume, mas que pode nos levar a outras questões que pode nos esclarecer questões práticas relacionadas à relacionamentos conjugais, além de nos fazer refletir sobre a nossa prática “amorosa”.

A analogia supracitada é ingênua, mas nos remete a questão de que o amor é inferido através da sua exteriorização por intermédio das ações humanas. E podemos ainda fazer outra analogia com relação à apologia de Hume à empiria; a de que, assim como as idéias abstratas não são passiveis de constatação empírica, o amor a priori não pode ser verificado na realidade, mas sim, somente, exteriorizado nas ações (não que seja o caso das idéias abstratas), como já foi dito.

1-      Mas surge daí um problema: Quando inferir amor? Através de que ações inferimos o amor? Ora, é simples, das ações positivas que tem como fim a perpetuação da convivência conjugal. Isto é, inferimos que o outro sente amor por nós quando ele age em prol de que a união perdure. Dentre estas ações estão inclusas todas as que foram supracitadas no sentido de demonstrar como formamos a idéia do amor: um indivíduo tende a se aproximar de uma pessoa, ele tende a permanecer com tal pessoa, investe com cortejos e declarações na relação, ele protege e cuida da outra pessoa, fixa relacionamento, constitui família. Mas é importante saber que outras ações simples também servem como premissas, como surpresas, presentes, elogios, entre outras que tem como fim encantar o parceiro.

2-      Ora, mas nas relações conjugais também há momentos de discórdia, onde as pessoas cometem atos que contradizem o amor, com brigas que são perpassadas por agressões[1], o que leva a grandes momentos de mal estar, dentre outros tipos de desentendimentos e de diferentes graus de dor que vem a causar. Daí surge outro problema: Quando há brigas e desavenças entre o casal, é sinal que o amor não existe mais? Basear-nos-emos em Agostinho de Hipona (Santo Agostinho), que no seu livro “Cidade de Deus” afirma que é natural de todos apetecerem à paz, ou seja, todos desejamos a paz, mesmo a mais horrenda das criaturas e o mais temido dos ladrões ou simplesmente qualquer simples pessoa como eu ou você leitor; Cada um deseja a paz ao seu modo. Agostinho mostra também que até nas guerras – o que contradiz a paz – se está presente este desejo de paz, pois este é justamente o sentido da guerra, estabelecer a paz de alguém, isto é verificado quando a guerra acaba e os vencedores estabelecem a sua paz no território. Desta idéia de Agostinho podemos tirar a resposta para o problema: Ora, se a postura adotada pelos cônjuges está de acordo com a superação de problemas então o amor está presente, pois a atitude ainda é de perpetuação da convivência conjugal. É impossível existir na realidade uma relação conjugal despendida de problemas, pois estão envolvidos na relação dois humanos e estes são, sobretudo falhos. Assim, mais cedo ou mais tarde os conflitos aparecerão e cabe aos próprios cônjuges superarem os seus conflitos e diferenças, caso exista mesmo o amor. Quando não se tem a pretensão de encontrar um meio de superar os problemas que aparecem, pode-se dizer o amor não existe e que o sentimento existente é outro.

3-      Esta reflexão dá origem ao terceiro problema: É verificado que as relações não findam sem restar resquícios de sentimentos e, algumas findam ainda existindo o que podemos chamar de amor; É possível que uma relação finde ainda existindo amor? Primeiramente, devemos identificar se o sentimento que permanece com o individuo após o fim do relacionamento é mesmo amor. Em algumas relações a presença de brigas, conflitos e desavenças se tornam tão comuns que os indivíduos se habituam a se desentenderem, é como se não conseguissem mais viver sem brigas. Na verdade, eles só criam estes conflitos para ter um momento de reconciliação com o parceiro e sentir da parte do outro o amor para consigo, ou seja, ele quer ter um belo momento de sentimentos à flor da pele. Neste caso, é comum que uma hora ou outra a relação se acabe, então os indivíduos se sentirão mal por julgar sentir falta de quem ama, mas na verdade eles só sentem uma mera “falta” de algo que lhe fazia bem. Isto não pode ser caracterizado como amor pelo simples fato de que o desejo do individuo não é fazer bem, cuidar do outro, mas somente suprir a sua falta, a falta de algo que ele fazia mais mal do que bem. Neste caso, o fim da relação se dá sem a presença de amor.

No entanto, há casos onde os relacionamentos findam ainda existindo a presença de amor entre os cônjuges. Podemos relacionar vários casos, por exemplo, quando o fim tem por trás uma força maior: Trabalho, mudança de residência, entre outros. Mas também tem o caso mais complexo, que é o caso do “outro amor”. Neste caso, um dos indivíduos ama a duas pessoas e decide ficar com uma só. Ele finda o relacionamento com uma das pessoas amadas e passa a ficar com uma somente. Neste caso, ele finda o relacionamento, mas o amor permanece consigo até ser superado. Do mesmo modo, o outro que foi trocado permanece na mesma situação, com um amor para superar.

4-      Mas é possível um indivíduo amar a duas pessoas? Sim, é possível que um indivíduo ame a duas pessoas. Nossa cultura é monogâmica, ou seja, prega que um indivíduo só deve se unir em matrimônio com uma única pessoa por vez, no entanto, nada impede que uma pessoa tenha o mesmo sentimento por duas pessoas. Isto é visto com todos os sentimentos, com a raiva, com o desprezo, com o nojo, com a amizade, e com o amor não é diferente. Por uma questão moral os indivíduos recusam ter certos tipos de sentimentos como o amor por duas pessoas, mas isto não é natural, é uma construção puramente cultural. Podemos verificar que em outras sociedades, que são poligâmicas, os homens cultivam os mesmos sentimentos ou ao menos as mesmas atitudes relacionadas a várias mulheres, e em geral são atitudes que correspondem ao sentimento chamado de amor.


[1] Não necessariamente física, mas sim no sentido de dizer coisas que machucam.

~X~

(Anderson Yankee / Tacyana Brito)

http://ask.fm/Andyankee

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s