Erasmo de Rotterdam e o Elogio da Loucura.

Desidério Erasmo (1467 – 1536), como muitos filósofos acabou recebendo um sobrenome que remete ao lugar que viveu. Ele nasceu em Rotterdam na Holanda. Foi pregador do Evangelismo Filosófico. Foi egresso na ordem dos agostinianos – O que comprova que era bastante inteligente, pois seguia Agostinho – e chegou a ser padre e Bispo de Combai, na França. Escreveu “Colóquios e Antibárbaros”, “Filosofia Christi”, e a que eu mais gosto, “Elogio da loucura”, a qual dedicou a seu amigo íntimo, Thomas More.

Elogio da Loucura.

A loucura é a temática principal deste maravilhoso livro de Erasmo. Mas é importante saber o que é a loucura; O autor vê a loucura como uma espécie de instancia psicológica que todo mundo possui, ou seja, é como algo que todos os seres humanos compartilham, cada um em seu intelecto. Para ele é a loucura que rege a vida dos humanos, é ela que torna a vida possível de viver. Pode-se dizer até que é a própria loucura que possibilita a vida em sociedade, a civilização e até a propagação/perpetuação da espécie humana, numa visão mais radical.

Mas o que seria a loucura? Para entendermos melhor este conceito vejamo-lo aplicado em alguns casos e exemplos que o próprio Erasmo dá no livro:

– Imaginemos um rapaz de uns 21 anos, estudante acadêmico, ocupado a maior parte dos seus dias por atividades intelectuais, visto por alguns como promessa para ser uma mente notável caso se invista corretamente em seu futuro. Ele tem consciência disso e almeja ser grande neste sentido. Eis que ele se apaixona por uma garota e após algum tempo o relacionamento começa a apresentar frestas de desentendimentos, conflitos, entre outras negatividades. Isso começa a interferir negativamente para a produção intelectual de jovem estudante e ele começa a se distanciar do seu objetivo maior no sentido de que a sua cabeça fica repleta de pensamentos adversos e não o permite centrar-se nas atividades intelectuais. Ora, o esperado é que, se ele se distancia do seu objetivo maior por um motivo adverso e de caráter negativo que poderia ser evitado, o que se espera que ele faça é justamente evitá-lo, neste caso, afastar-se de tal garota, findar o relacionamento e se concentrar no que ele realmente considera importante. Mas ele não o faz e continua o relacionamento com tal garota, mesmo com as frestas supracitadas ainda existentes.

O que imaginamos diante disso? Que burrice, idiotice, que loucura! É aí que chegamos no ponto, é a loucura num sentido genérico que faz tal garoto aceitar  e até desejar tal garota do seu lado, mesmo que isso lhe custe não concretizar seu objetivo.

É a loucura que faz as pessoas aceitarem a falsidade dos amigos, a corrupção dos políticos, os ciúmes numa relação conjugal, as dores e as condições da existência, os sistemas de produção econômicos que tendem a desumanizar o homem, a derrelição, as mentiras, as falhas de caráter dos próximos. Ou seja, a loucura é o que nos faz, de certo modo, aceitar as coisas que acontecem ao nosso redor, as quais na verdade demandaria uma atitude mais firma, mais eficaz, mais dura, em contraposição ao ato de simplesmente “fechar os olhos”.

O que podemos chamar de “antiloucura” é a sensatez, o agir racionalmente de acordo com o que a situação demanda de fato. Como exemplos, temos a satisfação de desejos simples; Quando estamos com fome, comemos; Quando estamos com sede, tomamos líquido; Quando estamos com sono, dormimos. É neste sentido, da assimilação que se deveria proceder evitando a loucura. Por exemplo, se existe corrupção, procede-se de maneira firme contra a corrupção, não se fica em casa simplesmente reclamando que ela existe sem fazer exatamente nada. Caso se defronte com uma pessoa com falhas de caráter, ou como é chamado “pessoa falsa”, simplesmente se evita manter relações com aquela tal pessoa, não é sensato continuar a manter relações com ela sabendo das suas características negativas, pois existe a possibilidade de ela causar algum dano ao colega em virtude da sua tendência ao mau caráter. É simples na teoria agir sem as ações serem perpassadas pela loucura, basta somente não querer acomodar as coisas, ou como se diz popularmente “empurrar com a barriga”.

No entanto, na realidade, na prática a loucura se torna necessária para possibilitar que o mundo não seja caótico. É sabido que em potencia todo mundo pode errar, então se cada pessoa considerasse o outro como um erro em potência, ninguém conviveria com ninguém, pois a sensatez manda evitar a possibilidade do erro. Deste modo, a loucura se mostra como condição de possibilidade para as relações humanas serem no mínimo aceitáveis e em ultimo caso boas.

A loucura para Erasmo de Rotterdam não significa somente fazer algo extremo que se considere como próprio de quem é louco, ou seja, de quem não tem juízo ou de quem é classificado como doente mental. Mas também, a loucura é visto como o mais simples ato de ingenuidade, a inocência pura de uma criança. Estes são justamente os dois pólos da loucura, em uma extremidade está o ato mais louco possível como correr nu gritando “Ave Hitler” dentro de um shopping lotado, e em outra extremidade está a ingenuidade, como a de quem acredita que Papai Noel vai lhe entregar presentes no Natal, na meia que está pendurada na janela ou na lareira.

Um dos exemplos mais interessantes que Erasmo dá no seu livro é o da mulher e o casamento. Ele diz que se as mulheres fossem sensatas não casariam, pois não é nada viável para elas. A união com um parceiro do sexo masculino ocasiona para elas em primeiro lugar uma vida de submissão, dever conjugal/maternal, dores no parto. Porém, a única preocupação das mulheres é tornar a vida para os homens mais agradável e, ao mesmo tempo, serem mais agradáveis, isto explica a vaidade, perfumes, banhos, enfeites, etc. Somente a loucura que é capaz de fazer as mulheres agirem assim. E, por existir essa loucura nas mulheres é que a loucura é a origem da vida, pois sem esta inclinação não se poderia progredir a espécie humana.

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~X~

(Anderson Yankee)

http://ask.fm/Andyankee

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