Intuição – Conceito básico e filosófico

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SIGNIFICADO BÁSICO

A intuição, segundo as palavras de Aurélio é “Ato de ver, perceber, discernir; [2] Pressentimento, presságio. Neste caso, a intuição se identifica no primeiro significado ao simples ato de identificar algo no mundo, ou seja, de ver mesmo, por exemplo, este texto que se aqui apresenta, podemos vê-lo, identificá-lo, percebê-lo e mais que isso, pois sabemos que ele é um texto. Então, a intuição não se limita a ver uma coisa, mas também a sabermos a respeito dela.

Já no segundo significado, e este é o mais conhecido e usado popularmente, é atribuído à intuição características mais místicas. Pressentimento, ou pré-sentir algo é de fato uma intuição, mas é importante saber que isto não se dá de maneira sobrenatural, mística, como que se houvesse no indivíduo que pré-sente um dom, algo que o faça transcender as condições de si e ter acesso a alguma previsão de um tempo futuro. Há também quem confunda a intuição com revelação, isto é, um conhecimento obtido por intermédio de Deus que, através do seu poder e sabedoria infinitos, insere no intelecto do individuo o conhecimento.

Neste sentido, a intuição entendida como presságio é algo puramente lógico, ou seja, ocorre por inferências simples no intelecto do individuo, o que o faz saber de imediato que algo pode acontecer ou vir-a-ser. Isto se dá basicamente por dedução, ou seja, o individuo ao longo da vida adquire experiências que são suficientes para ele deduzir que tal coisa pode decorrer de outras caso sejam concretizadas, com isto ele forma de maneira automática um encadeamento de relações causais onde a causa final será a dita intuição. Assim, a intuição também seria perceber, ver, mas agora é ver interiormente, perceber algo que vem de dentro de si.

Então, podemos perceber aqui dois tipos de intuição, uma que seria relacionada ao interior e outra relacionada ao exterior, no sentido de que nesta olhamos para fora de nós para ter a intuição ou que a intuição está relacionada a objetos externos, enquanto que naquela olhamos para dentro de nós para termos a intuição ou percebemos objetos externos, isto é, nossos conhecimentos e experiências previamente obtidos.

CONCEITO FILOSÓFICO

Na filosofia, mais especificamente nos trabalhos dos filósofos ligados à “Teoria do Conhecimento[1]” a intuição tem um visível papel de destaque. Isto por que ela é peça fundamental para entender o processo de produção do conhecimento humano. Grandes filósofos como René Descartes[2] dá este lugar de destaque para a intuição nas suas teses a respeito do conhecimento com um significado não tão diferente destes significados práticos do dicionário Aurélio, mas com certeza são bem mais amplos e assim, mais abrangentes.

Um conceito básico de intuição vista desta maneira (filosófica) pode ser encontrado no Dicionário básico de Filosofia: “Intuição: (lat. Intuitio: ato de contemplar) Forma de contato direto ou imediato da mente com o real, capaz de captar sua essência de modo evidente, mas não necessitando de demonstração[3]”. De certo modo, este conceito se aproxima em parte do significado básico de Aurélio, mas é visto que ele se mostra bem mais específico ao conhecimento e não qualquer conhecimento, mas o conhecimento racional da realidade na sua essência, mesmo que de forma imediata. Para entendermos melhor como isto se dá adentremo-nos no pensamento dos filósofos supracitados para vermos a contribuição de cada um neste âmbito.

DESCARTES E A INTUIÇÃO

“Por intuição entendo não a confiança flutuante que dão os sentidos ou o juízo enganador de uma imaginação de más construções, mas o conceito que a inteligência pura e atenta forma com tanta facilidade e distinção que não resta absolutamente nenhuma dúvida sobre aquilo que compreendemos; […] Deste modo, cada qual pode ver por intelectual que existe, que pensa, que um triangulo é limitado só por três linhas, um corpo esférico por uma única superfície […]”. (In Regras para a direção do Espírito)

Descartes foi um filósofo que sempre buscou estabelecer um critério racional para conhecermos as coisas, totalmente despendido de dúvida. No “Discurso do método”, nas “Meditações” ele vai buscar este critério racional e chega inclusive a citar as formas pelas quais conhecemos que apresentam dúvida e que conseqüentemente pode nos induzir ao engano, ao erro, à ilusão. Os sentidos (sensibilidade) seria uma destas formas de conhecimento que não é segura em sua totalidade, pois em algumas circunstancias podemos nos enganar quanto aos sentidos.

Estabelecendo que Deus é bom em sua totalidade e que assim não pode nos enganar quanto à realidade (pois não seria bom se assim procedesse), temos a segurança de que podemos conhecer as coisas sem que um possível “gênio mau” nos engane, nos iluda. Entre estes e outros argumentos ele fundamenta a segurança para podermos conhecer o que nos rodeia.

Para ele, a intuição seria uma forma de conhecer as coisas de forma segura. Através desta podemos captar de maneira segura e direta através da nossa inteligência (razão) os conhecimentos simples, que por assim serem não nos resta qualquer resquício de dúvida quanto a sua validade. Isto por que a intuição é caracterizada por nos fornecer idéias claras e distintas e uma apreensão da totalidade do objeto, sem precisarmos de uma devida demonstração, pois tudo isso é dado de forma imediata. Em outras palavras, conhecemos determinado objeto completamente sem precisarmos de um aprofundamento para se chegar a sua essência, pois a totalidade da idéia ou do objeto é nos fornecido no momento em que se dá o contato direto.

É importante saber que Descartes diferencia a intuição da dedução. Em primeiro lugar, a dedução também é uma forma segura de se conhecer. Por conseguinte, ela é no tempo posterior à intuição, pois ela é caracterizada por ser uma concatenação de intuições. Isto é, ela é o produto do encadeamento de várias intuições e suas relações mantidas entre si. É algo obtido de maneira inferencial, ou seja, seguido de maneira lógica.

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Referências:

http://pensador.uol.com.br/autor/rene_descartes/

http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5XYfnU3oFdcJ:www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/descartes/racionalismo.htm+intui%C3%A7%C3%A3o+descartes&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia – 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.


[1] Vertente filosófica que trata dos limites e possibilidades do conhecimento humano. É o sujeito que conhece perguntando-se a si mesmo, ou seja, objetivando-se para saber sobre o que ele mesmo pode conhecer e como conhece.

[2] René Descartes (31 de Março de 1596 – 09 de Fevereiro de 1650) Filósofo, físico e matemático francês, por vezes chamado de “fundador da filosofia moderna” e “pai da matemática moderna”

[3] JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia – 4.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

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~X~

(Andinho Yankee)

4 respostas em “Intuição – Conceito básico e filosófico

    • Muito interessante, só queria entender qdo em algumas leituras que fiz, há comentários que a intuição pode ser desenvolvida…como

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