O caso de um possível Masoquista

Eis o caso:

Recentemente o meu estado civil mudou para solteiro e, após isto eu passei por uma fase de vivencia geral conturbada. Reergui-me com a ajuda de psicólogos, amigos e família. A revira-volta não foi demorada, pois me estruturei fácil e rápido a ponto de suportar qualquer fator adverso proveniente do ex-relacionamento.

Paripassu a minha adversa experiência, minha amiga de longa data “2.3.20.8”, a qual me deu enormes forças no meu processo de estruturação, passava por uma situação idêntica. Eu que já tinha condições de tratar da minha experiência com um sorriso no rosto, vi-me na oportunidade de retribuir a força que esta pessoa querida me dera em outra oportunidade. Obviamente não só por dever ou dívida, mas sim em nome do grande edifício da amizade que tínhamos construído juntamente. E o fiz!

Tive facilidade para aconselhá-la pela identificação de alguns fatos por ela vividos com fatos por mim vividos. E a aconselhei-la como que só deseja o bem do outro, como alguém que sabe o que é bom e certo a ser feito em tal momento, como alguém que guia o outro sendo fiel ao desejo do outro. Independentemente de qualquer desejo ou tendência eu a aconselhei.

Escutei-a dizer que:

Ela (com seus 20 anos, muito bela, pratica academia, faz cursinho pré-vestibular, tem certa liberdade para se divertir com amigos, sexualmente ativa, religiosa-protestante, família estruturada), não suportava mais a situação em que se encontrava: Seu relacionamento em crise já não tinha mais salvação. Seu namorado (uma cara mais velho, trabalha, faz faculdade, situação financeira agradável, estilo playboyzinho com bad boy), é um sacana que a traia constante, sai com amigos e a deixa só, que não tem o menor interesse em torná-la feliz e muito tem a intenção de compromissar-se com ela.

“- […] A meu ver esse relacionamento já deu o que tinha de dar.

– Eu sei, eu também penso assim.

– Por que não dá um ponto final logo?

– Eu já acabei com ele, mas ele me liga e me fala um monte de coisas, e eu fico mal. Às vezes ele vem aqui e me chama para sair como se nada tivesse acontecido, como se ainda fossemos namorados.

– Por que você atende o celular?

– Eu não gosto de tratar ninguém mal, ainda mais ele.

– Não adianta acabar e continuar vivendo aquelas situações que você vivia com ele quando eram namorados. É o mesmo que não ter acabado.

– Mas ele insiste e diz que vai mudar. Eu acabo dando mais uma chance.

– Bom, se você não tomar uma atitude e suportá-la firmemente você vai acabar sofrendo e sofrendo cada vez mais.

– Eu sei.

– […] Volta para ele!

– Hã?!

– Isso mesmo, ele te faz mal, você tem consciência de que ele te faz mal e continua defendendo o cara e tendo pena dele e acreditando em possibilidades de mudança. Volta para ele logo e para de reprimir o teu desejo.

– Mas eu não quero mais!

– Se não quer, age em prol de esquecer ele. Não fica batendo na mesma tecla.

– É difícil.

– Eu sei que é difícil, mas se você não o faz vai continuar sofrendo constantemente.

– Eu vou tentar!

– […] Não tenho mais o que lhe dizer, apenas volte para ele.

– Eu não quero voltar para ele.

– Você quer sim. Quer saber qual é o seu problema? Você gosta do que ele faz com você. Está acostumada com o tratamento que ele te dava e ainda te dá.

– Eu não gosto não, eu quero ser feliz, quero viver a minha vida em paz.

– Não é o que parece. Se você quer isso deve agir em prol disso, mas você faz o contrário.

– […]

Conversamos inúmeras vezes sobre o assunto e, no fim, sempre eu acabava por dizer o que ela deveria fazer e ela por dizer que sabia o que deveria ser feito, mas não o fazia e fazia o contrário. Assim, resolvi tomar a iniciativa de ir pessoalmente a sua vivência geral para fazê-la agir em prol do esquecimento do ex-namorado. Minha intenção era mostrar que o mundo não se limitava ao que ela viveu com o “ex”. Eu fui visitá-la, fomos à orla, pizzaria, passear e tomar sorvetes, fomos à minha casa que até então ela não conhecia por morar um pouco distante, e ela alegrava-se e não tocava no assunto que lhe afetava.

Os momentos que passávamos juntos, hora só nós dois, hora com outros amigos, exaltava enormemente a nossa amizade. E esta foi exaltada a tal ponto que nos beijamos com carinho e passamos a nos desejar um ao outro. Após este acontecido passamos a sair com maior freqüência. Fui buscá-la, fomos à boate, à orla, à minha casa, à praia, ao show, ao barzinho e lá nos sentíamos maravilhosamente bem. Conversávamos, brincávamos, sorriamos, enfim.

Por outro lado, apesar de estarmos nos dando muito bem, ela ainda carregava consigo as chagas do ex-namoro. Era comum ver em suas redes sociais varias frases sugestivas referentes a sofrimento amoroso, pseudo-superação, pseudo-felicidade, pseudo-vida. Algumas frases como “estou muito bem”, “estou feliz”, “minha vida está ótima” faziam parte das suas atualizações, assim como trechos de músicas e poemas, ditos populares e frases feitas que remetem aos temas supracitados. Aqui de fora eu sabia da intenção e do fim esperado daquelas palavras e não me censurava ao dizê-la da sua situação. Mas todos os esforços eram totalmente em vão. Ela, semanas depois, continuava com as mesmas ações.

Em meio as nossas saídas, cada vez mais freqüentes, conversamos sobre a possibilidade de relacionarmos mais seriamente, ou seja, namorarmos sério. Dias depois, no carnaval saímos e:

“- Ao encontrá-la, ela simplesmente passou por mim, entrou no carro e sentou-se sem me dar a mínima. Não me deu nem um “oi”; e assim foi durante o resto do dia. Tentei por vezes manter contato com ela e saber o motivo de tal comportamento, mas não havia conversação entre nós de maneira alguma; ela simplesmente julgava normal o seu comportamento e ignorava as minhas perguntas, chegando até a tratá-las como ofensas a ela, isto é, como se as perguntas fossem de caráter pejorativo. Chegado o fim do dia, ela se dirigiu à sua casa e eu, mais tarde, dirigi-me a minha.

No outro dia um fato me chamou atenção. Uma frase em uma das suas páginas da web me levou a tirar uma conclusão crucial, a qual me fez entender por completo o seu comportamento estranho e desordenado, (pois é desordem agir ao mesmo tempo para o bem e para o mal quando se deseja apenas uma das vertentes, e é estranho o comportamento que vai de encontro ao seu próprio ser). A frase era a seguinte:

“Nunca demonstre demais, não dê certezas sobre seus sentimentos. Lembre-se: Pessoas gostam do que não tem” 

De imediato é percebível a imaturidade do indivíduo que redige palavras deste tipo. De fato as pessoas gostam do que não tem, o próprio Freud diz isso nos seus escritos, “O ser humano é um ser de falta”, mas no âmbito das relações amorosas humanas isso não deve ser tomado como práxis[1]. No âmbito moral, se você deixa de lado a naturalidade com que os sentimentos e a convivência fluem para torná-la algo complexo e sistematizado você age antieticamente, pois está objetivando o outro, usando-o como objeto para comprovação de uma tese egoísta, ademais disso não resultará felicidade alguma, a não ser que ela seja proveniente da infelicidade do outro em detrimento do seu desejo insatisfeito. Por conseguinte, o amor entre um casal deve ser recíproco. Ora, se uma pessoa limita seus sentimentos para causar algo no outro isso não é amor, primeiramente pelo fato de haver uma limitação intencional de um dos indivíduos e o amor deve fluir naturalmente e, segundamente, por esse ato ser de caráter maléfico, pois um dos indivíduos quer causar algo no outro, condicioná-lo e conseqüentemente o outro se torna alienado ao primeiro.

Assim, fica clara a imaturidade desta pessoa e a conseqüente desordem de idéias na sua cabeça. É visto também um grau enorme de egoísmo e o conseqüente grau ínfimo de humanidade.

Ademais, transcendendo o significado da frase, sabemos que ela tem um endereço, ou seja, é dirigida a alguém, deste modo, existe a possibilidade de ser dirigida a mim e se for esse o caso a situação da minha amiga se torna ainda mais complexa. Isto ocorre pelo seguinte raciocínio:

Eu tomei as rédeas da situação para torná-la capaz de reagir frente a situação adversa a qual a minha amiga passava. Sua situação estava adversa pelo fato de seu ex-namorado não lhe demonstrar sentimentos positivos as quais lhe alegrasse e a deixasse satisfeita, ou seja, seu ex-namorado não lhe dava certeza sobre seus sentimentos positivos. Ora, eu lhe dava certeza do que sentia por ela e das minhas intenções futuras e agia em detrimento da comprovação deste sentimento. Isso não foi suficiente para ela desapegar do mau sentimento que lhe atormentava e, além disso, ir de encontro ao que te fazia mal. Mais tarde ela cortou os laços comigo sem explicação alguma. Deste modo, aplicando esta frase à situação e considerando-a como sendo direcionada a mim, veremos que nossa amiga tem uma visível tendência masoquista[2].

O masoquismo, segundo Freud, “trata-se da dor como possibilidade de prazer” e é “caracterizado por abrigar atitudes passivas na vida erótica, essa passividade está aliada à satisfação associada ao sofrimento infligido pelo objeto sexual”. Isso basta para caracterizar a pessoa em questão como masoquista. Para constatar o fato é só ligar o raciocínio e a frase supracitados e veremos que, se a garota recusa os momentos bons que estava vivendo simplesmente por que eram bons (onde eu demonstrava meus sentimentos positivos) para apegar-se ao sentimento ruim que lhe afligia e o julga correto, pois a frase age como justificativa para o mau momento que lhe perturbava, ela só pode situar a sua felicidade no sofrimento próprio, ou seja, o que lhe fazia bem, em verdade, era os maus tratos do ex-namorado contra ela. Por outro lado, à atitude de sair da dor, de ser feliz sendo bem tratada ela tem aversão. Justamente por isso dirigiu a mim a frase a qual eu não deveria dar-lhe certezas de sentimentos e o que eu tinha que fazer era deixá-la na dúvida, causar-lhe o sentimento de incompletude, de falta.

É importante frisar que tanto no primeiro caso, de a frase ser mais uma mensagem sugestiva para o ex-namorado, quanto sendo para mim a sua atitude é auto destrutiva, pois no primeiro caso ela comprova a sua imaturidade e o seu baixo grau de humanidade, já no segundo caso ela se mostra como uma masoquista, o que também vai de encontro à salvaguarda da humanidade, é uma debilidade mental que leva a corromper o seu próprio ser.


[1] Práxis como simples prática.

[2] Masoquismo não no sentido da aplicação no ato sexual, mas sim retirando o seu sentido e aplicando-o direcionado à psique.

~X~

 

(Anderson Yankee)

 

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