“A Obra de Arte na época de suas técnicas de reprodução”

A Obra de Arte sempre foi passível de reprodução. Desde o tempo em que os discípulos copiavam as obras de seus mestres ou os falsários as imitavam para extrair proveito material. Já as técnicas de reprodução são um fenômeno novo e se desenvolveram ao longo da história e num ritmo cada vez mais rápido. Na Grécia antiga havia a fundição e a cunhagem que possibilitava aos gregos reproduzirem em série o bronze, as moedas e as terracotas. As demais só comportavam um único exemplar e não serviam a nenhuma técnica de reprodução. Ademais a gravura na madeira permitiu a reprodução do desenho. Mais tarde a imprensa permitiu a reprodução técnica da escrita, através da tipografia.

Mais o entalhe deu lugar a litografia, que possibilitou às artes gráficas o comercio das reproduções em série a produção de obras novas diariamente, ilustrando assim a atualidade cotidiana. Com isso, a litografia passou a andar de mãos dadas com a imprensa.

Ademais, a fotografia vem revolucionando a reprodução técnica quando demite a mão das tarefas artísticas essenciais colocando agora o olho no centro da questão. O olho é realiza a tarefa artística mais rápido que a mão, pois só precisa captar a imagem, enquanto que a mão desenhará. A litografia possibilitara o jornalismo ilustrado e a fotografia já trazia consigo as potencialidades para o cinema falado.

No século XX as técnicas de reprodução chegaram a tal nível que ficaram em condições de elas próprias se imporem como forças originais de arte. A reprodução da obra de arte e a arte cinematográfica reagiram sobre as formas tradicionais de arte.

Apesar de a reprodução ser a mais perfeita possível, sempre faltará nela o hic et nunc, ou seja, ela não tem a particularidade do original, que foi poduzido em um lugar e uma circunstância única e por um autor específico, isto é, a chamada autenticidade, que é caracterizada por “tudo aquilo que a obra contem e é originalmente transmissível, desde a sua duração material até o seu poder de testemunho histórico. Este hic et nunc remete sempre a vinculação da obra de arte a sua história, ou seja, o tempo e o lugar, as relações sociais e historicas daquela obra; o que se decai com a reprodução.

A autenticidade perde totalmente o sentido com a reprodução tecnica, a não ser no que diz respeito a reprodução feita pela mão do homem, pois esta contem plena autoridade, apesar de ser considerada falsificação. Esta perda de sentido da autenticidade se dá porque a reprodução tecnica está mais independente do original e também por que a técnica pode gerar reproduções de situações onde o proprio original jamais seria encontrado. Deste modo, a reprodução pode até deixar o conteudo da abra de arte intacto, mas o seu hic et nunc é desvalorizado.

Apesar de a autenticidade perder o seu sentido, a tradição continua empregada na obra tornando-a assim um fenomeno de massas. Neste caso, a reprodução confere á obra atualidade permanente. Isto por que a aura (“esse processo tem valor de sintoma, sua significação vai além do terreno da arte”) é conservada.

É sabido que o desenvolvimento da sensibilidade humana não depende somente da natureza, mas também da história. Então as obras de arte diferenciadas, criadas ao longo do tempo são apenas outras maneiras de perceber relacionada ao seu tempo. Ademais, em meio ao desenvolvimento da sensibilidade humana houve o declínio da aura. As causas sociais de tal acontecimento liga-se a duas circunstancias. De um lado exigem que as coisas se tornem, tanto humana como espacialmente, “mais próximas” e de outro lado, acolhendo as reproduções, tendem a depreciar aquilo que é dado apenas uma vez.

A tradição é uma realidade viva e extremamente mutável. Um objeto envolvido por uma tradição pode evocar sentimentos opostos em pessoas de culturas diferentes, mas há entre eles um elemento comum, a aura que sentem. No começo era o culto que incorporava a obra de arte numa determinada tradição. Geralmente, ela estava ligada a rituais mágicos, ou seja, tinha um valor utilitário; Por ser assim este objeto era único, tinha autenticidade. Com o desprendimento da obra de arte destes rituais, e sem fazer sentido a autenticidade, a sua aura é perdida.

Com o surgimento da fotografia, a primeira técnica de reprodução revolucionária, os artistas pressentiram uma crise. Deste modo, regiram professando “a arte pela arte”, ou seja, uma arte pura descompromissada com o social, apenas de caráter exaltivo. Desde que e perde o sentido de autenticidade na arte , toda a sua função deixa de se basear no ritual para se fundar agora na política.

A obra de arte tem valor de culto e de realidade exibível. A sua produção iniciou servindo ao culto; neste caso, a sua presença tem mais importância do que o fato de serem vistas. Esse valor de culto era o que impelia as obras a ficarem em segredo, vistas apenas esporadicamente e, em alguns casos, somente por pessoas escolhidas. Na medida em as obras de arte se desprendem do seu uso ritual, passam a serem mais expostas. Por conseguinte, as diversas técnicas de reprodução reforçam esse acontecimento.

A preponderância absoluta do valor de culto fez da obra de arte um instrumento mágico. Do mesmo modo, a preponderância absoluta do valor de exibição lhe proporciona funções novas, fazendo outras como a função artística, se tornarem acessória. O cinema e a fotografia testemunham claramente esse fato.

Com a fotografia, o valor de culto fica em segundo plano com relação ao valor de exibição. São nas fotografias (retratos) dedicadas aos seres queridos, desaparecidos ou afastados, que se encontravam os últimos resquícios de culto. Estas fotos antigas substituem a aura. Deste modo, quando o homem esta ausente da fotografia o valor de exibição sobrepõe-se decididamente ao valor de culto.

Alguns fotógrafos se prestavam a fotografar o movimento, ou seja, a evolução das coisas. Este tipo de trabalho tem significação política e já exigem serem acolhidas num certo sentido. Estas não se prestam mais a uma consideração isolada, mas sim a uma sucessão de eventos, ou seja, seguem uma linha de coerência que mostram uma evolução. Daí se mostra necessária a legenda, no entanto, tais legendas detêm um caráter diverso do titulo de um quadro. Mais tarde no filme, onde não se pode captar nenhuma imagem isolada sem se levar em conta a sucessão de todas as que precedem, as imagens se mostrarão mais imperativas e precisas.

No século XX, o cinema nasce e se desenvolve fortemente. Este trazia consigo uma gama de problemas bem maiores do que os que a fotografia trouxe.

Muitos teóricos, na intenção de conferi-lo a dignidade de arte, o introduziam através de suas próprias interpretações e com uma inegável temeridade elementos de caráter cultural. Na tentativa de interpretar o cinema, muitos destes teóricos o comparava com outras formas de arte, como as escrituras hieroglíficas ou pinturas. Outros lhe atribuíam um valor exatamente sagrado, sobrenatural. Ainda outros, acerca de algumas adaptações cinematográficas, o julgava como cópia do mundo exterior, isto o impedia a ascender ao nível da arte. Indagações que, sem duvida, foram feitas acerca da fotografia no período de seu desenvolvimento.

Diferentemente do teatro, onde o ator apresenta a sua atuação artística diretamente ao publico, o cinema conta com aparelhos que permitem uma produção planejada, com a possibilidade de correção de cenas, entre outros artifícios. Deste modo, os aparelhos não são obrigados a respeitar a performance integral do ator, já que há as tomadas e estas possibilitam uma manipulação da cena. Deste modo, a atuação é submetida a uma serie de testes ópticos. Assim, o produto (filme) é uma sucessão de cenas feita pelo montador do filme.

Outra conseqüência a gerar mediação dos aparelhos entre a performance do ator e o publico é que, não estando o ator próprio a apresentar a sua performance diante do publico, ele não tem como adaptar a sua atuação as reações do público, ou seja, ele não tem a possibilidade de interferir na atuação, já que quem a reproduz é um aparelho. Isso causa no publico o sentimento de estar diante de um perito, cujo julgamento não fica perturbado por qualquer contato pessoal com o intérprete. O publico, neste caso, só consegue penetrar intropaticamente no ator se penetrar intropaticamente no aparelho. Deste modo, repete o ato do aparelho, que é examinar um teste.

No cinema, os atores ficam suprimidos e privados da sua realidade. Aqui o homem deve agir com toda sua personalidade viva, mas privado da aura, pois esta depende do seu hic et nunc e não sofre reprodução. Diferentemente, no teatro o ator é inseparável da aura. Na produção do filme, a câmera substitui o publico isso faz desaparecer a aura dos interpretes e dos personagens representados.

No cinema, o interprete do filme raramente entra na pele da personagem devido a forma como o filme é produzido, com interrupções constantes e series de seqüências isoladas, em rapsódias de episódios para a partir daí se realizar a montagem do filme. “Nada demonstra melhor que a arte abandonou o terreno da bela aparência, fora do qual se acreditou muito tempo que ela ficaria destinada a definhar”.

O ator, no cinema é tido como um acessório, já que é escolhido apenas pelas suas características, isto é, ele não é necessariamente escolhido pelo seu papel de ator, de interprete no sentido profundo da palavra. Deste modo, não são raros bons interpretes para o cinema. Isso leva a outra discussão, a mercado cinematográfico, pois o cinema também gera empregos.

Como o ator é apenas acessório, o cinema possibilita que qualquer pessoa tenha a chance de aparecer na tela, de ser filmado até mesmo numa grande obra de arte. O interprete do filme vende a sua força de trabalho e a sua imagem, que é levada ao publico; e ele é consciente disso. No fim de um trabalho o ator e identifica com um produto fabricado.

Deste modo, na medida em que restringe o papel da aura, o cinema constrói fora do estúdio a personalidade do ator, que favorece ao capitalismo pelo culto a magia desta personalidade, que não passa do encanto corrompido de seu valor de mercadoria. Em favor da revolução, o cinema somente permite uma critica revolucionaria das concepções antigas de arte. Já que é o capitalismo que o comanda. Outro fato importante é que, no cinema, os espectadores são tidos como semi-especialistas, que comentam os resultados dos filmes, que os julgam semelhantemente ao modo como se julga uma competição.

A reprodução de um filme conta com varias espécies de elementos estranhos ao desenrolar da ação. E para que o espectador possa abstrair tudo isso é necessário que o seu olho se confundisse com a objetiva da câmera. Assim, a artificialidade reina no cinema. A fim de conferir pureza ao filme, o cinema recorre a um conjunto de processos peculiares, como: variação de ângulos de tomadas e o agrupamento de varias seqüências de imagens do mesmo tipo.

Há no âmbito da arte diferenças peculiares entre pintor e filmador. Este último, diferentemente do pintor, não observa uma distancia natural entre a realidade dada e ele próprio. Enquanto que a imagem criada pelo pintor é global, a do filmador é fragmentada, dividi-se em um grande número de partes, onde cada qual obedece a suas leis próprias. E é justamente esta imagem fornecida pelo cinema que é mais significativa para o homem hodierno, pois, com a ajuda de seus aparelhos destinados a penetrar profundamente na realidade, ela atinge o aspecto das coisas que escapa ao olho.

É sabido que a arte tem o poder de modificar as atitudes da massa; tanto progressista como retrogradamente. O caráter progressista se dá na medida em que há a proporção de prazer na relação em que o espectador identifica a sua experiência de modo direto intimo como o que é assistido. Contrário a esse caráter está a fruição, que se dá na medida em que se diminui a significação social da arte; as pessoas se tornam acríticas. É justamente no cinema que o publico não separa a crítica da fruição.

O aparelho apresenta o mundo ao homem de um modo bem diverso, chegando a desempenhar um papel de teste. Este teste, ao longo do tempo, enriqueceu a nossa atenção, um aprofundamento da nossa percepção, fato que outros modos de arte não o possibilitaram. Isto leva a considerar a superioridade do cinema aos outros tipos de arte que o antecedeu. Com relação à pintura, o cinema se mostra superior pelo fato permitir uma análise melhor do conteúdo dos filmes e fornecer mais precisão no levantamento da realidade. Já quando se trata do teatro, o cinema é capaz de isolar uma maior numero de elementos constituintes. São estes fatores que vão favorecer a mútua compenetração da arte e da ciência, devido a sua possibilidade de exploração, e sua capacidade de sublinhar detalhes ocultos com seus artifícios como o primeiro plano e o ralenti. É aqui que se vai reconhecer a identidade entre o aspecto artístico e o cientifico da fotografia, até então divergentes.

Outra característica marcante da arte é a da projeção de indagações para o futuro. Isso acontece por uma modificação no nível técnico, ou seja, é uma superação que leva a uma nova forma de arte. Em conseqüência, o que é suscitado no presente é tido como extravagante, ridículo, exagero e serve de palco para inúmeras críticas. Com isso, a arte ultrapassa o seu propósito.

Um ótimo exemplo desta relação é a experiência dos dadaístas, que concretizaram todos os fatos supracitados. Estes, em conseqüência disto transformaram a obra de arte em um objeto de escândalo, cuja intenção era chocar a opinião publica, inclusive, privando-a radicalmente de qualquer aura. Deste modo, a obra de arte passa de um espetáculo atraente a uma experiência chocante, que fere o espectador traumatizando-o.

O cinema também possui um caráter que se identifica com esse dos dadaístas, de diversionismo, pelos choques causados nos espectadores devido às mudanças repentinas de cenas, de lugares e ambientes. Este fato torna o cinema completamente distinto da pintura, pois a imagem desta exige contemplação, associação de idéias. Por outro lado, no cinema isso não ocorre, pois a imagem não é fixa, ela rapidamente dá lugar à outra. Assim, não é possível a associação de idéias no espírito do espectador; é como se as imagens realizassem o ato de pensar pelo espectador. É aqui que se situa a experiência traumatizante do cinema; é preciso um exercício maior de atenção para se poder apreender o filme, assim como tudo que choca.

O cinema sofreu inúmeras e radicais criticas à respeito do seu caráter, visto demasiadamente como negativo. Algumas das atribuições dadas ao cinema: “mero passatempo para analfabetos e miseráveis, para pessoas aturdidas pelo trabalho e preocupações, assim como um tipo de arte que não demanda esforço mental, implicação de idéias, que não levanta indagações, entre outras” (Duhamel). Ademais, não possibilita critica social e nem traz esperança à massa, a não ser a de estar na pele do ator, isto é, uma projeção da pessoa naquele personagem através da identificação, não com a experiência da pessoa, mas com um desejo, um sonho. E é sabido que isso só contribui para o capitalismo.

O cinema, por executar a tarefa mental da pessoa, ou seja, de pensar por ela, não exige concentração alguma, apenas fruição, assim, o que ele proporciona é a diversão. Isto é, totalmente o oposto de uma pintura, pois esta exige total concentração do individuo para ser possível a associação de idéias. No primeiro caso, com a diversão a arte penetra na massa; em contrapartida, no segundo é aquele que se concentra que penetra na arte.

Assim, se quer entender o porquê desta aceitabilidade do cinema pela massa é justamente porque essa atitude de aficionado não requer nenhum esforço de atenção, ou seja, não é da atenção que ela provém. Este também é o principal motivo de o filme deixar em segundo plano o valor de culto da obra de arte; é porque não demanda atenção.

  

 

 ~X~



  

(Anderson Yankee)

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