“O bruxo preterido” (Jorge Luís Borges) – Análise literária e filosófica.

Neste pequeno conto de Jorge Luís Borges encontramos alguns tipos de reflexões, principalmente morais. Também há algumas peculiaridades estratégicas no texto, como lacunas (o que evoca questionamentos diversos) e acontecimentos inexplicáveis que provocam a reflexão.

Primeiramente, e desde o inicio do conto, são vistas algumas lacunas no texto, que na verdade serve de estratégia para não tornar o texto fatigante. Isto é, estas suprimem fatos que são dignos de inibição pelo fato de não acrescentarem emoção alguma ao texto e pelo contrario, somente serviriam para tornar o texto mais longo, cansativo e sem brilho. Um exemplo disto é visto entre o primeiro parágrafo e o inicio do segundo parágrafo no conto, onde é visto a narração da ida do Deão à casa de Dom Illán:

“Em Santiago, havia um Deão que cobiçava aprender a Arte da magia. Ouviu dizer que Dom Illán, de Toledo, conhecia-a mais do que ninguém, e foi a Toledo procurá-lo.

No mesmo di em que chegou, dirigiu-se à casa de Dom Illán e o encontrou lendo em um cômodo afastado. Este o recebeu com bondade e lhe pediu que adiasse o motivo de sua visita até depois de comerem […]

 

Neste caso, pode-se perceber varias lacunas que geram questionamentos do tipo: Como ele chegou a Toledo e quanto tempo durou a sua viagem? Como ele simplesmente encontrou casa de Dom Illán? Como ele entrou na casa de Dom Illán para encontrá-lo em um cômodo afastado? Quem permitiu a sua entrada? São questionamentos que podem ser feitos, mas que não merecem relevância, pois o importante é o que acontece e é citado pelo autor.

Por conseguinte, são representadas questões como a de perspectivas e expectativas referentes ao outro. Quando Dom Illán aspira algum benefício para seu filho em troca dos ensinamentos ao Deão. Essa questão faz brotar outra que é a do egoísmo; que o Deão tinha relacionado ao seu mestre, quando não saberá reconhecê-lo e nem recompensá-lo de modo algum quando tinha em mãos as devidas oportunidades. Outra questão que merece atenção é a da corrupção humana frente ao poder; O de inicio Deão que gradativamente se tornou papa reagiu de maneira totalmente contraditória com Dom Illan relacionado ao tratamento de ante, isto por se tornar Papa. Daí vê-se a corrupção frente ao poder e absorção de um comportamento impróprio do personagem e próprio do cargo o qual passara a exercer no momento. É uma perda de identidade gerada pelo poder.

A decepção também aparece fortemente neste conto. Dom Illán leva o Deão ao seu local de prática mágica, num quarto subterrâneo para ministrar os ensinamentos mágicos ao visitante que mais tarde o decepcionará. Este quarto subterrâneo pode ser tomado como uma analogia à intimidade de Dom Illán; Ele levou o Deão ao mais intimo dele, ao mais profundo da sua casa, e abriram juntos a porta para esta intimidade, como é visto no trecho:

[…] explicou Dom Illán que as artes mágicas não se podiam aprender senão em lugar apartado, e tomando-o pela mão levou-o a um quarto contíguo, em cujo soalho havia uma grande argola de ferro […]

[…] Juntos levantaram a argola e desceram por uma escada de pedra bem lavrada, até que ao deão pareceu terem descido tanto que o leito do Tejo estava sobre eles […]

Enfim, várias questões concernentes à conduta humana, caráter estão postas neste pequeno conto. Rico em questões que se podem ser consideradas numa visão panorâmica, mas se aprofundada o leitor encontra fatos intrigantes no que diz respeito à própria história. São fatos de dar nó na cabeça e demandam uma reflexão mais fina. Falo em especial de dois trechos, um mo início;

[…] Dom Illan disse que adivinhava ser ele deão, homem situação e belo futuro, por quem temia ser logo esquecido […]

 

O segundo;

 

-Pois terei que comer sozinho as perdizes que para esta noite encomendei.

A criada apresentou-se a Dom Illán e este deu ordem para que as assasse. A essas palavras, o Papa encontrou-se na cela subterrânea em Toledo, apenas Deão de Santiago, e tão envergonhado de sua ingratidão que não atinava como desculpar-se. Dom Illán disse que bastava essa prova, negou-lhe sua parte nas perdizes e o acompanhou à rua, onde lhe desejou boa viagem e se despediu com grande cortesia. 

O trecho diz respeito a uma previsão feita pelo Dom nos primeiros contatos com o deão. O segundo trecho reflete, o veredito de Dom Illan frente a decepção com o deão, assim como também mostra a interiorização do deão frente a sua própria ingratidão para com o Dom Illan.

O que se mostra na ligação entre estes dois trechos, onde há a previsão e a confirmação da previsão, é que a passagem de um ponto ao outro se mostra como uma experiência mística, puramente mágica em que tudo ocorre no próprio quarto intimo de Dom Illan. Se for possível uma analogia neste caso, fazendo referencia a primeira analogia (do quarto íntimo) pode-se dizer que Dom Illan deixa o deão entrar no mais profundo da sua intimidade para ele atingir o seu próprio íntimo.

Estas implicações pressupõem que, se tudo isso não aconteceu e não passou de uma experiência mística, ela de fato foi premeditada e consentida por Dom Illan, pois ele já alertara o deão anteriormente, logo ele tinha consciência. Ademais, se isso não foi uma experiência mística, por que Dom Illan nada fez por prevenção?

É por tudo isso que o pequeno conto se torna brilhante. Não são as respostas mediatas que dão o brilho e sim o leque de possibilidades que ele abre. Veremos no fim que as respostas prováveis ou possíveis são o que menos importa, pois é do próprio jeito que é que o texto tem que ser.

~X~

 

(Anderson Yankee)

 

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