O meu Natal

~X~

 

           Depois que eu morri, eu que me olhava de fora de mim já não agüentava mais me olhar naquela situação, deitei meu corpo vazio ao solo escuro, meu outro levantou e saiu andando sem direção num deserto escuro. Meu eu vazio continuava vazio, sem vida. Por um lado o vazio me garantia a isenção de qualquer duvida, ansiedade, confusão, ou seja, qualquer pensamento. Por outro lado, me transformava em um vegetal.

           Mas, de certo o vazio não está vazio, pois contem partículas invisíveis quaisquer que o preenche, não fazendo dele um vácuo. Posso dizer que, essas partículas que preenchiam a minha mente eram a minha experiência e a minha conseqüente maturidade, assim como as minhas certezas e os meus anseios. Com isso, apesar de desprovido de pensamentos quaisquer, eu não deixava de possuir a minha estrutura; não quero dizer, com isso, que a minha estrutura era estupenda, nem tampouco ínfima, mas apenas que, de fato, eu possuía uma.

           Meu outro se levantou e saiu andando sem direção, abandonando o meu eu vazio ao chão pelo fato de ele não poder fazer nada por ele e, ademais, a sua presença afetava tanto a um quanto a outro, pois, se de lado um sofria com as dores materiais provindas da experiência, o outro sofria com as dores do seu eu e a impossibilidade de ação em prol daquele. Deste modo, a ação em prol daquele ser sobrepujado pela vida não poderia vir de dentro dele mesmo e sim de um agente externo. Um agente que pudesse agir sobre aquela estrutura, oferecendo-lhe elementos positivos.

           Foi aí que apareceu uma quantidade de agentes externos que transcenderam o esperado, se existia esperança neste caso. Eu falo de amigos, simples colegas, desconhecidos, familiares, até pessoas que se apresentavam de modo ostil a mim. Todas estas pessoas juntas atravessaram o deserto escuro, pegaram todos ao mesmo tempo em mim e me levantaram mais uma vez; Digo que fizeram o papel de desfibrilador, o qual foi usado para me ressuscitar.

           Durante o período da minha morte até hoje eu recebo mensagens, telefonemas, visitas, até cartas, emails, torpedos e outras formas de comunicação destas inúmeras pessoas que se importaram com a minha situação e o meu sofrimento, a minha dor. Foi mister para eu ficar de pé, meio que cambaleando no primeiro momento, esta força vinda das mais diversas fontes. Digo também que esta força nunca vai deixar de ser tão importante pra mim e não apenas neste momento de dor e sofrimento, pois eles não apenas me levantaram, mas me ensinaram a separar o que é essencial do que é acessório na pratica cotidiana.

           Não posso esquecer-me de citar entre estas pessoas algumas que se sobressaíram em preocupação, carinho e entrega nesta situação. Lembro da minha tia Jil, que chorou do meu lado, me pediu pra reagir, que me ofereceu a sua casa como abrigo de recuperação, que abriu as portas dela para que meus amigos viessem me visitar e passar comigo o tempo que quisessem, ela que também me acompanhou a médicos e psicólogos, que me comprou calmantes e remédios que fossem precisos, que acordava cedo e dormia tarde quando eu precisava, que combinava programas com amigos e familiares para eu me distrair, que até fez papel de cupido me apresentando primas lindas que eu não conhecia e a Marcinha (risos), professora auxiliar do colégio São Judas Tadeu.

           Em nível de informação, sobre a Arelly, eu não me esqueci de como ela me tratou antes de eu “morrer”. Lembro que ela ficou do meu lado, me levou pra casa, cuidou bem de mim. No entanto, seus maus tratos, considerando as atitudes e o pensamento dela estão ao mesmo nível da positividade que ela me causou, senão sobrepujando esta positividade. “Quem ama cuida e não maltrata, não engana e não brinca com os sentimentos do outro”. Ademais, isso não vem ao caso, pois falo agora sobre depois o rompimento com a justificativa de “tempo” que ela deu.

           Lembro com carinho infinito de Samara, que me ligava de hora em hora todos os dias só pra garantir que eu não fizesse besteira e com isso mantinha os meus amigos de redes sociais informados da minha situação para assim, mobilizá-los a me visitar, dar força para que eu pudesse retornar a minha nova vida. Era a Samara quem me ligava e chorava comigo, pois não podia estar comigo por estar trabalhando em Natal – RN. Samara que, quando chegou, me levou para sua casa e organizou festas e chamou o pessoal de antigamente para uma partida de Handebol. Samara, assim como a minha tia me mimou com presentes diversos e saídas divertidas com amigos; aqueles que não te abandonam.

           A Raquel, a Mayara, a Beth, a Rafinha, o Evandro, Sr. Daniel, Jefferson, Patrícia, Beth, Tacy, Diegh, Davison, Renato, Yago, Karcia, Elisa, Diego, Rafael, Igor, Nina, Thamy, até a Martinha Carol, e todos aqueles que m deram força, seja de que modo foi, agradeço de coração… Os que eu não conhecia também, Lívia, amiga da Samara, me deu muita força com ótimos conselhos; Sandra, amiga da tia Rosy, tirou uma carga negativa da minha mente; a assistente social lá da Casa verde, que conversou por horas comigo e me deu conselhos valiosos; àquela garota que tem problemas mentais lá da casa verde que queria que eu ficasse com ela lá, que apesar de ser uma coisa engraçada me fez refletir sobre coisas adversas e deu um tapa na minha auto-estima; à Neide que também me apoiou, inclusive me ligando a uma pessoa excepcional que é a Dr. Hilnete; à diretora do colégio São Judas Tadeu – quem sabe minha futura patroa – que me convidou para ser professo do seu colégio, o que me ressuscitou a vontade de estudar e, conseqüentemente, os planos pessoais de realização profissional.

           Penso com muito carinho nas inúmeras psicólogas que vêm me ajudando; Lívia que conversou comigo abertamente, me tratando de igual para igual sem perder o sentido do seu trabalho. Sandra que me ajudou a descarregar a maior parte dos elementos negativos que me atormentavam, ajudou-me a esclarecer as duvidas e confusões da minha mente e aceitar a realidade. Renata, minha irmã que voltou de Portugal, que me ajudou a trabalhar a minha ansiosidade e a alta concentração de energia psíquica negativa que estava me bloqueando. A tia Rosy, mãe da Renata, que me ajudou a rever as minhas crenças e me ajudou a fortalecer o Ego. Por fim, mas não menos importante, Dr. Hilnete, que me mostrou a realidade do que eu acreditava sobre o meu relacionamento amoroso, assim como a realidade das minhas crenças inseguras e vem me ajudando a me estruturar para lidar com tudo relacionado a vida de maneira mais sensata e segura, madura, racional. Ajudou-me também a relaxar, confiar e a ter cautela com seus exercícios, praticas psicológicas, terapias e buquêts.

           Não há como falar com certeza destes, mas agradeço àqueles que se preocuparam de longe, indiretamente, sem estar presente, mas desejando força não importa de onde. Agradeço também aos falsos, àqueles que estavam desejando que eu não me recuperasse, mas juravam na cruz que queriam meu bem; bom, palavras não são tudo, mas já é alguma coisa, deste modo, eu ignoro a sua atitude (que de nada me serve nem interfere) e fico com as suas palavras, que apesar da contradição é são positivas.

           E assim eu nasci outra vez, não falo em ressuscitar aqui ou ressurgir, pois a ressurreição e a ressurgência só te traz de volta da mesma maneira, por outro lado, o nascimento te traz vazio, apto a aprender, a conhecer.

~X~

 

Prazer, Anderson Yankee!

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