O Despertar da Consciência na Civilização Medieval

Heloise and Peter Abelard

Fica claro que a intenção de Marie-Dominique Chenu, no seu livro “O despertar da Consciencia na Civilização Medieval”,  é mostrar como se deu o despertar da consciência na civilização medieval, como já diz o próprio nome do livro, ou, em outras palavras, o aparecimento do sujeito (na concepção moderna da palavra), ou ainda, do indivíduo. Este é um trabalho desafiador pelo fato de que, mormente só se atribui à modernidade (inicia no Séc. XV), e somente à modernidade, o aparecimento do sujeito.

É imprescindível saber que Chenu não abarca todo o período da Idade Média no seu trabalho, mas sim um período específico que vai dos anos 1120 a 1160. Assim, por um trabalho de especialização, de especificação, Chenu realiza uma síntese dos acontecimentos deste período para atingir o seu objetivo. É o chamado método histórico.

Inúmeras características podem ser atribuídas ao chamado sujeito, como: ser que tem consciência de si, ser que não é altista, provido de subjetividade. Deste modo, palavras-chave como: como: consciência, indivíduo, subjetividade, remetem ao sujeito. Por outro lado, palavras como: coletivo, universal, altismo, vontade que remetem ao oposto do que é o sujeito. Ademais, o melhor termo para dar significação ao sujeito é o de “ser consciente”, daí o próprio título do livro. A priori, o termo consciência deve ser entendido como a compreensão da totalidade dos fenômenos psicológicos e morais do ser.

Chenu atribui o do despertar da consciência a Pedro Abelardo, assim como o título de dialético e criador do método escolástico. É em Pedro Abelardo que começa o florescimento de um novo homem, o homem moderno; uma referencia dada por Chenu, é a Historia Calamitatum (História das minhas Calamidades), uma correspondência de Abelardo, onde se pode ver a tamanha humanidade e fé do mesmo, assim como traços marcantes da consciência aqui tratada.

O fator de suma importância em Abelardo, que gera essa atribuição de homem moderno, é a sua moral da intenção, uma moral da pessoa, descolada da natureza. Neste conceito, o nosso julgamento diante de Deus e dos homens não é determinado pelos objetos em si envolvidos na ação, mas sim pelo consentimento que o damos. Isto é, não é o ato em si, a consumação que conta, mas sim o consentir do ato, é a vontade de cumprir um ato maléfico que constitui o mal. Deste modo, pode-se pecar sem agir, pois o consentir antecede o agir, então, mesmo se a pessoa se vê impedido de praticar uma ação má, ela peca, pois houve em seu interior a vontade de concretizar o ato. Assim, tendo como critério da moralidade o assentimento, o ato mesmo, a prática consumada não acrescenta nada à culpabilidade do pecador.

É mister saber que este consentir tem que ser, fundamentalmente, deliberado, ou seja, tem que partir livremente do sujeito, sem nenhum tipo de coerção externa. É esse o critério de julgamento diante de Deus; é culpado quem é responsável pelo consentimento deliberado, pois se este parte de uma coerção externa, o responsável pela coerção é quem consente, portanto, quem coage a ação alheia é responsável e assim, culpado. O exemplo mais chocante que Abelardo dá para demonstrar essa situação é o da morte de Cristo, onde os soldados executam Cristo a mando de outros, portanto não são culpados. Ademais, aqueles que agem mal crendo estar fazendo o bem não são culpados, pois o erro involuntário anula a culpabilidade destes. Isso traz implicações, inclusive, para o âmbito do pecado original. Este é natural e por assim ser não é um pecado, pois o pecado se julga em função da culpabilidade da consciência e da interioridade.

Ademais, do mesmo modo de como se julga um ato mal, se julga um ato bom, pois os dois partem do consentimento. De certo, uma boa intenção não pode gerar uma má ação e vice-versa.

Em nível de informação, o subtítulo desta moral de Abelardo é o Gnôuti Seautón (Conhece-te a ti mesmo) Socrático. Este tema é revivido no século XII de maneira renovada, adequada à doutrina cristã dentro da moral abelardiana. A adoção deste termo não é por acaso, é que justamente este “conhece-te a ti mesmo” leva o indivíduo a olhar para dentro de si, ou seja, a realizar o processo de interiorização consciente da vida do espírito, sem o recurso dos sentidos, pois estes não são necessários para se penetrar no mais íntimo da consciência. Neste sentido, este processo tem o intuito de cingir a “alta qualidade do consentimento do espírito, ao bem da dignidade do homem”.

Esta moral se baseia na proposição de que Deus julga o espírito e não os atos em-si das pessoas. Àquele que concretiza um mau ato não há menor julgamento do que àquele que somente mentaliza, tem a vontade de concretizar o ato, mas não o faz. Pois, como já foi dito, o ato mesmo não acrescenta nada à culpabilidade do pecador. No mundo terreno a ação é considerada mais significante do que a intenção, mas em Deus é o oposto. Por conseguinte, o julgamento divino é certo, pois aos olhos de Deus nada se esconde, em contrapartida, aos homens o julgamento é falho e a sua certidão relativa está no flagrante.

Esta nova perspectiva moral que Abelardo propõe traz sérias conseqüências para a sociedade do seu tempo. Os abalos se deram principalmente no âmbito religioso. E pode-se dizer que o que levou Abelardo a desenvolver esta moral era mesmo provocar um choque nas estruturas do que dizia respeito a disciplina moral e penitencial em prática. Ora, para isso acontecer é pressuposto que estas não fossem de bom caráter; E era isso mesmo que Abelardo achava, pois esta gerava atitudes de docilidade e passividade dos cristãos diante do que era imposto disciplinarmente.

Na perspectiva eclesiástica, para a absolvição do pecador era essencial a prática sacramento da penitência e pela contrição. A primeira é significativa por comportar a consciência das ações cometidas e a segunda por exigir a interioridade subjetiva. Deste modo, há uma dupla interioridade do ser. Ademais, o caráter das penitencias era judiciário, isso, de certo modo, reprimia a emancipação das consciências e seu juízo pessoal. O fator objetivo estava para além do subjetivo.

Já para Abelardo, para a absolvição do pecador, a contrição é o centro da disciplina penitencial. É ela que libera imediatamente o pecador. Nesta perspectiva, o arrependimento é fundamental, ele diminui o papel da absolvição e da autoridade sacerdotal, pois eram os sacerdotes que davam o perdão. Sendo assim, o perdão se torna interior, numa ligação direta com Deus e não somente com o padre durante a confissão.

Aqui é visível a oposição de Abelardo a Bernardo de Chartres, que considerava as palavras sacramentais da Eucaristia, não importa por quem fossem pronunciadas, como integralmente plenas de eficácia.

A partir desta concepção, com este novo modo de absolvição dos pecados, o homem já não se vê mais estritamente ligado a objetividade jurídica, ou do outro, e passa, pela interiorização, da consciência de si a estar mais junto à subjetividade própria. Ou seja, é uma emancipação da consciência; a consciência dos seus atos. Ademais, contribuirá para a eliminação da doutrina que impunha publicamente sanções exteriores, em beneficio da penitência privada.

A moral da intenção de Abelardo ocasionou mudanças na autoridade em geral daquele tempo, principalmente no âmbito judiciário. As autoridades passaram a considerar mais a subjetividade das pessoas; os elementos da intenção, das circunstancias, condições de vida, papel social, ou seja, houve uma flexibilização e adaptação da literatura penitencial à psicologia e à personalidade do penitente. Do mesmo modo, viu-se o declínio do sobrenaturalismo impregnado em ações consideradas como julgamento de Deus, acontecimento que gerava a alienação das consciências.

Assim, vê-se o declínio do obedencialismo das regras monásticas e uma revolução no âmbito comportamental e nas estruturas governamentais. No âmbito judiciário, como já foi dito, há inúmeras mudanças, mas, sobretudo, o fator de maior relevância é o desprendimento das leis do objetivismo excessivo do Antigo Testamento.

O amor

Chenu também cita que neste mesmo período se deu “a invenção do amor no Ocidente”, o qual contagiou todo um povo, entre eles grandes mestres como Wilmart, Leclerq e Gilson. Por conseguinte, Chenu demonstra que não é só com Abelardo, na agitação das cidades que se passam os acontecimentos que o levaram a tirar as conclusões de seu livro, mas também no âmbito campestre, nos vales cistercienses, muitas coisas importantes acontecem, como essa “invenção do amor”. E não é por acaso que Chenu cita esse florescimento do amor; é que ele contém traços comuns com a moral de Abelardo, os quais contribuem para “o despertar da consciência”.

O amor apresenta em si uma grande capacidade de interioridade. Este não requer outra coisa além de si mesmo, deste modo há a exaltação da consciência de si que se produz “à medida do dom ao amado”. Através do amor todo temor é banido, a confiança reina, o sentimento de liberdade; Tudo isso emana da comunhão com o amado. Amar, possuir o amado é possuir a si mesmo, é amar a si mesmo; assim, na vontade de que o outro seja o outro, o amado é tanto mais ele mesmo quanto mais ele é amado. Esse é o circulo da interioridade.

Deste modo, Marie-Dominique Chenu explicita como se deu o inicio da formação do sujeito, no período de 1120 a 1160, na denominada Idade Média, rompendo com a idéia de que esta aparição se deu exclusivamente na Idade Moderna (inicia no Séc. XV). Sua análise explicita os fatores morais e psicológicos deste afloramento da consciência tanto no âmbito urbano, com a agitação das escolas onde atuava o arauto desta análise, quanto no âmbito rural, nos campos cistercienses, onde ele situa principalmente a invenção do amor no Ocidente. Assim, com esse panorama das mudanças nas consciências, nas estruturas governamentais que levou a subjetividade a sobrepujar a objetividade, pode-se dizer que o sujeito, de fato, aparece na Idade Média, com e em Abelardo, “o primeiro homem moderno”.

~X~

(Anderson Yankee)

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