Santo Agostinho de Hipona

Todo o pensamento de Agostinho gira em torno do cristianismo. Isto se deu, inicialmente, na sua infância quando Agostinho já recebia algumas leigas noções acerca de Deus, mais tarde Agostinho conhecera o Deus do cristianismo formalmente através das suas leituras das Epistolas de São Paulo.

Embora sua mãe fosse bastante religiosa, Agostinho teve uma educação pagã dos doze aos dezesseis anos. Após um ano de ociosidade ele foi a Cartago cursar retórica, onde também se afeiçoou bastante pelo teatro.

Agostinho despertou para a vida filosófica após conhecer o diálogo Hortênsio, de Cícero. Neste momento evidenciou-se que Agostinho tinha um apego ao cristianismo, pois sentia falta da presença de Cristo já neste texto filosófico que pretendia uma não separação da filosofia em escolas distintas, mas sim uma busca da sabedoria como seu próprio fim. Então, o que Agostinho pretendia era a busca da sabedoria na doutrina de Cristo. Para isto se dedicou ao estudo das escrituras, mas decepcionou-se com o estilo da linguagem da bíblia que ele considerava ordinária e tosca, isto ia d encontro com os ideais de Cícero.

No entanto, Agostinho pretendia ser cristão; mais tarde aderiu ao maniqueísmo que prometia uma verdade cabal, de ordem superior e menosprezava aquilo que desagradava Agostinho no cristianismo. O Maniqueísmo o seduziu pela promessa de uma verdade, pela identidade de concepções acerca de Deus e da alma, esta seita também é de caráter materialista. Mais tarde Agostinho decepcionara-se com esta seita, pois via não ser de ordem segura os métodos usados pela mesma, isto o levou ao ceticismo.

O erro de Agostinho foi, por meio do orgulho, inverter a ordem natural das coisas, ou seja, confiar tanto m si próprio a ponto de preferir o saber à fé, quando deveria deixar-se orientar pela autoridade, humildemente.

Sua emancipação se deu renunciando a todas as concepções de pensamento a que ele tinha se apegado nessa busca por uma verdade. Agostinho renunciou ao racionalismo e ao materialismo dos maniqueus e ao ceticismo que veio com a sua decepção com a seita.

Na renuncia ao primeiro Agostinho contou com a influência de Santo Ambrosio que dizia que a Escritura sempre comporta um sentido aceitável se entendida corretamente. Nesta, ele chega a três pontos que foram cruciais para a formação de uma nova opinião, primeiramente ele descobre a noção de espírito o que o leva a ultrapassar o sentido concreto e imediato das palavras e imagens da escritura, por conseguinte ele reconhece não ser absurdo principiar a sua investigação pela fé, chegou a esta conclusão por se dar conta do erro que cometeu; ele submetia a doutrina da igreja ao seu juízo racional imaturo, diz ter sido muita pretensão de sua parte fazer o que fez e isto o levou a cair no ensino absurdo maniqueu, diante disso percebeu que não era irrazoável partir da fé. Por fim ele reconhece ter recorrido aos inimigos da igreja para buscar instrução acerca da doutrina da mesma, no caso os inimigos seriam os maniqueus. Mesmo após chegar a todas estas conclusões, Agostinho ainda não se entregara completamente, sabia que a igreja tinha uma autoridade e queria saber mais a respeito da mesma.

Agostinho segue a sua emancipação renunciando ao materialismo. Um fator marcante nesta fase a emancipação foi o encontro com o neoplatonismo, este lhe proporcionou uma metafísica do espírito e até uma vivencia mística. O neoplatonismo não era o caminho para o cristianismo, mas com ele Agostinho pode contemplar inúmeras idéias como: “a noção de uma luz incorporal, invisível e puramente espiritual” (isto se dá pelo afastamento dos sentidos), “a de ser absoluto e o ser meramente participado” (Deus é o único ser absoluto e os demais são relativos), “todas as coisas são boas” (as coisas não são boas por que se corrompem, mas carregam consigo a bondade), “o mal é privação de um bem e por si não existe” (o mal se apresenta na mesma forma que as coisas as coisas sofrem uma destituição no seu ser), “O mal não pode originar-se de Deus”(o mal por si não existe, então é um não-ser, assim, não é obra de Deus, já que deu o ser (relativo) a todas as coisas que ele criou). Assim, Agostinho vê qual a natureza mal como o pecado, este é uma lacuna a ser preenchida e não uma substancia. Já a ordem reina onde cada coisa está em seu devido lugar.

Por fim, Agostinho renuncia ao ceticismo. A insatisfação com o maniqueísmo e os conhecimentos científicos que Agostinho vinha obtendo teve o efeito de desiludi-lo profundamente, isto o levou a cair no ceticismo. Nesta fase ele deixou de nutrir qualquer convicção segura, mas se perguntava: como é possível se obter qualquer verdade nesta concepção? Sabia que existiam verdades incontestáveis como as matemáticas, até aí não duvidava da própria verdade, mas questionava como é possível obter verdade a respeito de questões supremas. Ele encontrou o que procurava no neoplatonismo, quando se convenceu de uma realidade supra-sensível, ou seja, de um mundo espiritual.

Para livrar-se definitivamente do ceticismo Agostinho escreveu o “Contra os acadêmicos”, este tinha o intuito de livrar também aqueles que sofriam da mesma dor dele. Neste, Agostinho cita principalmente a “evidencia imediata dos fatos vividos na realidade (a argumentação cética invoca erros dos sentidos, ainda que estes não reproduzam fielmente as coisas, pelo menos reproduzem algo, algo que é visto e sabe-se que é real), do cogito (fundamenta a verdade na existência do sujeito pensante, existente e vivente. O próprio duvidar dos céticos leva-o a concluir de que existe e não pode duvidar disso, pois ninguém duvida da sua própria consciência, até se esta conclusão for errônea estará certo, pois só quem existe está sujeito a errar.) e das verdades lógicas (verdade das proposições lógicas que são verdadeiras e não falsas ou que negam o seu oposto sendo ou uma coisa ou outra, demonstram que há possibilidade de uma verdade segura)”, assim como o fato de o ceticismo ser autodestrutivo e desumano ( “o sábio deve evitar contentar-se com qualquer afirmativa que contenha opiniões inseguras”, isto gera uma gama de conseqüências, uma delas é impor a moral a esta situação) e cita também a evolução histórica do ceticismo (neste caso ele cita a construção do ceticismo, que nasceu como uma medida pedagógica de Arquesilau para abalar a certeza de Zenon e seus adeptos; cita o ceticismo como uma reação do espiritualismo platônico ao materialismo estóico).

É de suma importância frisar que Agostinho nunca deixou de buscar a Deus e nem duvidou da sua existência, sempre soube o que estava procurando, restava saber de que modo deveria procurar na intenção de possuir a quietude que almejava e alcançar a sua salvação. Agostinho, pleno de acreditar na existência de Deus, formulou uma argumentação com o intuito de deixar clara a sua crença.

Duas condições são dadas para uma demonstração racional da existência de Deus: a boa fé e a fé. Na primeira o indivíduo tem que se por como alguém disposto a analisar com cautela as proposições do interlocutor, em outras palavras, o individuo tem que se apresentar de maneira flexível. Na segunda, Agostinho diz que é preciso partir da fé para poder compreender a Deus e que é nosso dever aspirar a inteligência daquilo que cremos, dado que o fim do homem não é crer em Deus, mas sim conhecê-lo. Ademais Agostinho apóia sua argumentação em verdades inteiramente seguras por meio do cogito (refutação ao ceticismo), isto é, prova que o ser existe e que pensa, assim, prova também a existência de Deus por meio do ser que tem consciência conhecente. “Se o sujeito pensa, vive; se vive, existe; sabe que pensa, vive e existe”, este é o conceito mais perfeito da argumentação de Agostinho.

Segue-se a sua argumentação equipado de dois pressupostos: 1- aquilo que inclui certas outra perfeições, sem estar incluídos nelas, é mais perfeito que estas; 2- aquilo que julga de outras coisas é mais perfeito que as coisas sujeitas ao seu julgamento. Agostinho tenta estabelecer uma gradação hierárquica do conhecimento, tendo em vista que nesta ordem o conhecimento intelectivo está acima do conhecimento sensível. Sentimos as coisas com cada órgão sensorial particular, mas o saber que sentimos é de outra ordem, uma ordem superior; há um sentido interior que julga os sentidos. Diz também que encontramos esta força nos animais, de forma que ainda não os ultrapassamos, porém, vamos além destes pelo fato de o julgarmos, e o que julga do outro é superior àquele que é julgado. Na ordem do conhecimento intelectivo ou a razão também está abaixo da verdade, esta é transsubjetiva, enquanto que o conhecimento sensível é puramente subjetivo (particular a cada ser, isto é, cada ser possui a sua subjetividade). Diz que cada ser contém impresso na sua mente a marca da sabedoria que contem em si as verdades eternas e imutáveis.

As verdades são superiores à razão humana pelo fato de serem também atemporais, permanecerem o que são não importa o tempo em que se encontrem, são insuscetíveis de progresso, por outro lado a razão progride no saber, assim estão em construção, em mutação. De certo a realidade ultima é a verdade ou algo ainda mais elevado, mas o fim desta hierarquia com certeza é Deus. Isto prova que Deus existe pela fé e pela razão, saber débil, porém seguro. Apesar de tudo, Agostinho, nestes argumentos, não quer apresentar uma prova estritamente dialética nem a necessidade da existência de Deus e sim mostrar a superioridade de Deus sendo algo que está no nível da verdade ou algo que ela depende. Mostra uma realidade que ultrapassa a razão e que se encontra no domínio do espiritual. Tudo isto mostra o seu percurso emancipatório, sua experiência pessoal.

Nesta experiência pessoal, Agostinho formula uma teoria do conhecimento que também é um meio de mostrar a existência de Deus. Neste percurso ele passou pelo materialismo que o conduzira ao conhecimento sensível. Diz ele que neste âmbito a espiritualidade também está presente, faz isso separando o objeto conhecido do conhecimento que temos dele. Neste caso, a sensação é própria da alma e o corpo tem sensação aparente. Assim o corpo é uma porta para a sensação chegar à alma, no entanto, a experiência deixa gravada na alma as sensações, assim quando um fato se repete a alma traz a sensação à tona. É importante frisar que não há uma reciprocidade entre corpo e alma, pois a alma produz a sensação independente da influencia do corpo, assim é a alma que atua sobre o corpo e não o contrario

A alma entra em atividade quando não há equilíbrio entre corpo e ambiente, ela está de sentinela em todos os órgãos, a sensação chega a ser uma exploração do corpo pela alma.

Segue a formula de como acontece uma sensação: Algo corpóreo atinge um órgão sensorial, este órgão irá sofrer uma modificação, a alma, que está presente em todos os órgãos, irá perceber esta modificação e irá produzir a sensação respectiva ao órgão que foi atingido. Verifica-se que a sensação é ato próprio do pensamento, o que capacita a compor a sensação é a memória, no entanto há situações em que a alma recorre ao objeto material para medir a sensação. É visível que a sensação não existe por si, é preciso algo de espiritual para ela existir. É aí que a alma se mostra superior ao corpo.

Sabendo que a alma produz as sensações, Agostinho agora se pergunta se ela é a causa das suas próprias idéias. De certo, pela conversa as pessoas transmitem idéias umas para as outras, mas as palavras servem apenas para trazer a lembrança as experiências previas, assim se alguém quer conhecer um objeto deverá tê-lo concretamente. Isto abre um paradoxo: Será que a teoria é inútil? Não, no entanto tem de haver o contato com agentes estimuladores ou admoestadores e sinais para a alma os interpretar se apropriando destes, assim ela tira do seu interior a substancia aparentemente exterior. Assim ela é conduzida de fora para dentro de si mesma, no entanto ela não se isola em seu interior, refugia-se em Deus que é o término final da análise. Faz isto por que este é o mestre transcendente que nos ilumina os corações e nele podemos identificar as verdades eternas e imutáveis. Ora, só Deus é eterno e imutável, e é pelo contato com ele que podemos conhecer as verdades.

“Ao gênero destas verdades pertencem os objetos ideais da matemática, da estética e da ética”. Para explicar essa parte ele faz referencia a Platão (Reminiscência). Diz ele que a explicação dada pelo filósofo é insatisfatória, sendo atribuída a alma uma existência anterior a do corpo e que seus conhecimentos atuais são recordações das experiências anteriormente vividas. Diz que isto não explica por si só a maneira como o espírito toma contato com as verdades eternas. A única explicação é a da identidade e continuidade da natureza racional.

Com relação ao modo como a razão entra em contato com as verdades Agostinho não dá uma resposta clara. Mas frisa que demanda uma intuição o contato com elas e que, de certo elas são vistas pela mente, mas não estão impressas nesta. Então, elas existem em si mesmas e permanecem no seu lugar e iluminam a todos os que quiserem percebê-las. No entanto, para alcançá-las o individuo tem que interiorizar-se, assim a razão toma consciência da presença de Deus, que é a verdade e sede destas outras verdades.

É visível que na doutrina de Agostinho, para se alcançar Deus o individuo vai ao mais intimo da consciência, passando por um processo gradual de superação das coisas. A força motriz que leva o ser a passar por esse processo é o amor, amor em conhecer algo aparentemente desconhecido. Fala-se de aparentemente pelo fato de não se amar o que não se conhece, logo o que se procura é conhecido, já que é o amor que o move. Em outras palavras, o querer saber algo de alguma coisa pressupõe um saber a priori, portanto ele procura por um saber que já possui. Amor que tem como fim sair da ignorância, tornar conhecido o desconhecido. A alma forja em seu interior uma figura daquele objeto que deseja conhecer a ponto de desiludir-se não identificar-se com aquela figura, por outro lado, quando se tem o resultado esperado a sensação é de realização.

~X~

(Anderson Yankee)

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