Síntese da relação entre algumas entrevistas com diretores de escolas e o texto “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova”.

É notável que a educação brasileira atual passa por inúmeros problemas de organização, precarização e o que diz respeito a sua especificidade. A região brasileira onde esses problemas são mais visíveis, mais expostos é a região Nordeste, isto não quer dizer que nas demais regiões não haja estes problemas, mas pelo Nordeste ser a região mais pobre do país, esta situação se agrava.

De certo a educação de qualidade e eficiente é uma das formas de amenizar diversos problemas econômicos de qualquer país que seja, já que pessoas mais instruídas não se submetem a qualquer situação a qualquer situação e assim sempre almejam o melhor para si. É importante frisar que, para isso a educação tem que ser eficiente, isto é, alcançar o seu objetivo.

Então, em pleno Nordeste, mais especificamente em Alagoas, foi feita uma entrevista com três diretores de escolas distintas para saber um pouco a respeito de como a escola está reagindo ao tempo e aos problemas atuais, se mudou algo ou não comparado à escola antiga tradicional, como está sendo o ensino, a situação dos professores, enfim, qual a situação da escola atual. Para isto está sendo tomado com reflexão o texto “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” que mostra um projeto que visa um novo tipo de escola, a Escola Única, que é Laica, gratuita, obrigatória e de coeducação.

A primeira questão levantada foi sobre o ensino religioso que segundo Antônio Nóvoa faz parte da gênese da educação, já que a mesma surgiu no seio das congregações religiosas que posteriormente se transformaram em verdadeiras congregações docentes. Com relação a esta questão, os dois Diretores entrevistados, que são de escolas públicas, não concordam com o ensino religioso privilegiando apenas uma religião (católica), pois há outras religiões que passam valores que contribuem para a formação do indivíduo enquanto ser social. Já o terceiro entrevistado, que é uma diretora de uma escola particular e de ensino fundamental, concorda com o ensino religioso por causa dos valores transmitidos pelo mesmo, mas não considera a questão do espaço às outras religiões. Assim, podemos ver nestes casos que há, em alguns, uma visão aberta, respeitosa as visões e crenças da sociedade, porém todos ainda estão ligados á visão antiga de escola, onde é passada um tipo de ideologia predominante, seja esta do estado ou até dos próprios diretores, estes não proporcionam uma escola neutra na questão da escolha ou não de crença dos alunos. De certo as religiões passam valores para a formação do indivíduo como ser social, mas estas também comportam ideologias que podem ser usadas para a dominação dos menos instruídos por parte de quem comporta maior conhecimento. Este é um problema.

A segunda questão abordada foi a da importância da educação laica. Os diretores de escolas públicas citaram a importância real da educação laica pelo respeito às demais religiões e por este ser um modo democrático de ensino, já a diretora da escola privada deixou claro que é necessário existir o ensino religioso, pois é este que deve ser encarregado de repassar os valores necessários para a formação do ser social. De certo os diretores das escolas públicas citam a importância do ensino laico, mas não como é visto no texto tomado como base. Estes falam do respeito às demais crenças e esquecem-se daqueles que vão receber o ensino, pois o que isso acarretará para eles, em que contribuirá para a formação dos alunos? No texto base o autor propõe o ensino laico, pois este não tomará partido de uma ideologia ou crença já preestabelecida, ela fica apenas responsável por passar ao indivíduo os elementos essenciais para a sua formação, estes elementos são retirados da história com o intuito de mostrar aos alunos os passos e caminhos a serem seguidos para se desenvolver as suas potencialidades.

Quanto à diretora da escola privada, esta ainda está bastante apegada à gênese da educação.

Segue-se a entrevista com a questão da importância da universalização da educação. Nesta questão foram unanime as respostas, todos os diretores acham que a educação deve ser universal, isto é, para todos e de qualidade. Esta é uma questão problemática, pois se pensarmos numa educação para todos, ela teria que ser gratuita e com vagas suficientes para comportar todos na idade escolar, com isso seria justo existir escolas particulares? E quanto às universidades seguiriam o mesmo sistema? De certo não seria justo existir escolas privadas, pois estas já se diferenciariam das públicas e o ensino não seria mais universal, seria de dois pólos, e seria preciso também que as universidades e cursos técnicos seguissem o mesmo padrão, só assim a educação seria universal. É importante destacar que o ensino não se conteria em preparar profissionais, como é visto atualmente, e sim se preocuparia com a verdadeira natureza da educação que é mostrar os elementos da história essenciais para o indivíduo assimilar no presente e assim desenvolver suas potencialidades.

Tendo em vista a melhor qualidade da educação, foi perguntado aos diretores se há em suas respectivas escolas alguma reforma educacional.  Um dos diretores de escola pública não entendeu a pergunta e nem sabia do que se tratava. O outro diretor de escola pública disse que não havia reformas educacionais na sua escola. Por sua vez a diretora de escola privada disse que havia na sua escola reformas educacionais com o intuito de atualizar-se, já que o tempo passa e as coisas mudam e é preciso estar atento às mudanças. Este é um fato interessante de se analisar, se considerarmos, por exemplo, um aluno de dez anos atrás, iremos perceber outro contexto em sua vida e assim, outra forma de viver em sociedade e na escola outra forma de aprender. Se um professor trata os seus alunos de hoje como os alunos de dez anos atrás ele certamente irá ter dificuldade em lidar com este aluno e assim o fazer assimilar o assunto com eficácia. Portanto é tarefa do professor refletir acerca do modo que lida com seus alunos, da mutabilidade do processo de aprendizagem decorrente dos valores atuais e dos novos métodos usados na profissão docente para o melhor rendimento do seu trabalho.

Foi perguntado aos diretores se as reformas nas políticas educacionais, como por exemplo, os PCN’s melhoraram a realidade educacional. Também foram unanimes as respostas para esta questão, todos os diretores afirmaram que sim, que serviu para ordenar uma possível desordem, como também trouxe maior orientação pedagógica e quanto aos PCN’s, deve-se segui-los. Esta questão também traz uma problemática. Se pensarmos os PCN”s, quem os define? Já podemos ver que tem que haver muita confiança para confiar em algo unificado, comum a todos, já que pretende-se uma educação de qualidade. É preciso que estas imposições que vem com as reformas sejam realmente consistentes e que não visem o repasse de ideologias de A ou B, já que como vimos no início, a educação tem que ser laica e cumprir o seu papel fundamental. Foi dito também que os PCN’s facilitavam o trabalho dos professores, pois já tinham um currículo a seguir, neste sentido seguimos questionando acerca do que seria necessário para a melhoria do trabalho docente.

Inúmeras soluções foram dadas pelos diretores como a diminuição da carga horária, melhores condições de trabalho, melhores salários, enfim, atos que resolveriam problemas que assolam a vida dos docentes e que refletem na qualidade do ensino. Decerto alguém que trabalha sem problemas o atormentando constantemente não renderá tanto quanto alguém que realiza o seu trabalho de maneira harmoniosa, portanto é necessário que, para a melhor eficácia do ensino, os professores têm que ter condições que favoreçam o seu desempenho, a sua produção.

A próxima questão aborda os PPP’s (Projetos Políticos pedagógicos), questão que apenas um diretor ousou responder, pois um deles não sabia do que se tratava e outro apenas disse sim. O diretor que respondeu disse que o PPP da sua escola visa tornar o aluno um cidadão consciente dos seus direitos e deveres e ativo na sociedade, mas não informou de que modo. Um PPP além de tudo tem como objetivo integrar a comunidade na vida escolar, isto é, ter a ajuda daqueles que fazem parte direta e indiretamente do meio escolar, estes vai do diretor às famílias dos alunos, também ex-alunos, enfim, todos que possam contribuir para o crescimento da escola. Essa interação só tem a trazer benefícios para a instituição, pois já é visto as escolas abandonadas, sucateadas e jovens se entregando à marginalidade, muitas vezes por falta de atenção. Com essa interação da comunidade a escola pode ser reestruturada, tanto na parte física da instituição como na parte pedagógica. A família participando mais da vida do aluno na escola irá garantir que ele realmente assimile o que é passado, pois a família tem o dever de cobrar do aluno, pois é o mesmo que estará sendo formado como indivíduo social. É nesse ponto que a comunidade entra, na hora de ajudar a instituição a ter melhores condições, minimizar a precariedade para o repasse do conhecimento eficaz.

Esse foi outro ponto abordado na entrevista, como já vimos, as melhores condições de trabalho garantem uma melhor eficácia na educação, então que outras reformas seriam necessárias para elevar a qualidade da educação?  Neste ponto foi citada principalmente a valorização do professor, também foram citadas as melhores condições de trabalho, recursos financeiros e melhor política educacional. É notável que todas as melhorias citadas favoreçam os professores, portanto estes parecem ser o ponto principal para a melhoria da educação. É visto que a desvalorização do trabalho docente, a progressiva perda de autonomia da classe gere um desconforto para os mesmos e assim, prejudica a qualidade da educação, já que os mesmos não conseguem trabalhar harmoniosamente.

A ineficácia do ensino também é reflexo da sobrecarga de horas/aula dos professores, já que os mesmos praticamente não tem ócio, pois os mesmos quando não estão em aula estão em casa preparando o seu trabalho para os próximos dias, isto é extremamente desconfortante e desmotivador. É percebível então, que tal pessoa, até mesmo por desgaste, estresse, não conseguirá ministrar uma aula de qualidade se comparado a uma pessoa em situação oposta à sua.

Tendo em vista esta questão da ineficácia do ensino, foi feita a última pergunta da entrevista com os diretores. Qual o impacto da aprovação progressiva na qualidade do ensino? Todos os diretores se mostraram a favor da aprovação progressiva, justificam que esta ajuda a alavancar o ensino, a adequar os alunos à sua série, isto é, manter proporcional a idade e a série do aluno, outros dizem apenas que não é justa a repetência. Porém, todos reconhecem que a aprovação tem que ser decorrente do esforço do aluno e que a aprovação progressiva geralmente, para aqueles que não se esforçam, gera um aprendizado insuficiente, ineficaz e que o melhor mesmo seria o aluno rever o que não foi assimilado. Podemos ver aqui que há certa ponderância dos diretores com relação aos alunos, que há certa pena em reprová-los, mas que muitas vezes o faz sem condições necessárias. Isto traz conseqüências drásticas para e educação, pois o aluno ascende de nível escolar sem condições para assumir as novas responsabilidades, passa, mas sem a base necessária para poder assimilar conhecimentos mais elevados.

Como foi visto na entrevista e comparando-a com o texto base, estas escolas se distinguem bastante da proposta de escola do texto, a qual seria laica, isto é, não tomaria partido de uma ideologia ou crença, gratuita, ou seja, aberta para todos; seria também obrigatória, e de coeducação. Esta escola seria um modelo único, para isso não existiriam escolas privadas. Esta por sua vez teria um ensino eficaz, de qualidade, isto é, o ensino cumpriria o seu papel fundamental.

Com esse modelo escolar a comunidade participaria da vida da escola com intuito de banir a precarização e sucateamento das escolas, assim, com melhores condições de trabalho os professores poderiam exercer de maneira harmoniosa o seu trabalho para assim, com a participação da família na cobrança, os alunos absorveriam por completo o ensino tanto de valores quanto para formá-lo para o trabalho. Assim, não existiriam problemas como a aprovação progressiva, já que a qualidade do ensino é boa e os alunos com isso teriam alicerces sólidos para progredir os seus estudos.

Portanto, uma imensa reforma tem que ser feita na educação atual para se chegar a um modelo tão bem articulado, seria preciso abandonar as ideologias, dar melhores condições, ter mais recursos financeiros, abandonar os laços de dominação do estado com relação aos que detém o poder, inclusive abandonar a ganância, a ambição exacerbada dos governantes e principalmente o medo de ascensão das classes baixas, que é necessário para a regulação das classes ou a minimização das diferenças das classes.

~X~

(Anderson Yankee)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s