A Ética do Conhecimento.

GUEDES, Enildo Marinho. Curso de Metodologia Científica. 2 Ed, Curitiba, HD Livros Editora, 2000. Cap. 11.

       Do Real ao Utópico ;Do Utópico ao Real

       A Ética do Conhecimento.

A ética é uma área de estudo da filosofia que reflete as ações humanas à luz máxima da concepção do que seria perfeito, isto é, analisa as ações humanas e com base na mesma dirá se determinadas ações são boas ou más, viáveis ou inviáveis para a conduta humana. A ética tem o objetivo de cada vez mais humanizar a raça humana sempre espelhando o mais perfeito possível.

O senso comum está demasiadamente presente na ciência. Por não trabalhar com a dúvida, o questionamento o senso comum é um artifício bastante usado pelos homens para encontrar respostas fáceis. Aplicado á ciência o senso comum se encontra no fato de as pessoas considerarem os resultados de pesquisas, isto é, teorias e teses como verdades absolutas, mas as verdades científicas são falíveis, superáveis, ou seja, duram enquanto não surge uma melhor explicação para o real. Isto se dá por que os elementos que compõem a ciência são: Objeto e Sujeito. Estes elementos possuem vários atributos que vão tornar a objetividade da ciência uma Utopia. No caso do Objeto as teses não podem ser totalmente objetivas por que precisaria para isso esgotar totalmente o Objeto de estudo, e isso é impossível parra os humanos neste tempo e condições. No caso do Sujeito, ele depende de instrumentos tecnológicos, da sua faculdade cognitiva, orientações metodológicas, isto é, inúmeras características que o parametrizam quanto à capacidade de conhecer. Além de tudo isso o ser humano é de ordem social, afetiva e biológica, isto é, é perecível e conhece através dos sentidos que são limitados, tem sentimentos e interesses e geralmente age em prol destes, assim duvidamos também da neutralidade da ciência já que envolve-se interesses.

 Muitas pessoas detentoras do conhecimento se aproveitam do senso comum da ciência para lucrar em cima das pessoas “iludidas”, isto se dá por que as pessoas que vivem no senso comum têm estas teses como verdades absolutas e acreditam nelas plenamente se tornando assim vulneráveis àqueles que conhecem a realidade dos fatos.

É impossível negar o fato de que a ciência está estritamente ligada ao poder, pois um depende do outro. No caso da ciência, ela necessita de condições para se desenvolver, is é, cada vez mais sofisticados aparelhos tecnológicos para propiciar o melhor resultado das pesquisas. Já o poder, ou os poderosos necessitam dos produtos da ciência para poder satisfazer ou propiciar a satisfação dos seus desejos. Este é mais um fato que comprova a não neutralidade da ciência.

Assim, geralmente são os poderosos, os que têm mais poder aquisitivo que financiam pesquisas científicas. Sempre há interesse por trás de pesquisas científicas, alguns citam o fato de pesquisar para distanciar-se da ignorância, de certo isto acontece, mas na verdade sempre é algo mais forte que demanda estas pesquisas. Tudo isto é visto no dia a dia de empresas privadas e do estado. As empresas privadas geralmente financiam pesquisas de grupos renomados para obter mais tecnologia, novos produtos enfim, algo que lhe deixe á frente da concorrência. Já o Estado, que em alguns países é o maior financiador de pesquisas, também tem seus interesses no financiamento de pesquisas, os recursos enviados ás universidades para o financiamento estão agregados à política de desenvolvimento do mesmo. Portanto, pensar que pesquisas científicas são feitas apenas com o interesse de sair da ignorância, de conhecer também é uma Utopia.

As pesquisas científicas têm alguns limites que advém do objeto de estudo. São três estes limites, o primeiro é a possibilidade de acidentes por falha humana ou eventos da natureza e a conseqüente perda de controle do objeto de estudo, o segundo limite encontra-se no enigma do desconhecido, isto é, manipular um objeto desconhecido que pode se revelar em adversas formas inesperadas, isto também pode acarretar a perda de controle do objeto. Por fim, o ultimo limite das pesquisas cientificas é a manipulação de humanos como objeto de estudo.

Este assunto abrange uma polêmica que é a da não revelação de acidentes decorrentes de pesquisas, é imaginar quantos fatos já ocorreram provenientes de acidentes com pesquisas científicas e não são revelados á sociedade, ficam guardados e arquivados por aqueles que são do meio onde ocorrem os fatos. Cabe à ética do conhecimento refletir sobre essas ações e decidir o que deve ser feito.

Sabendo que as pesquisas cientificas são demandadas por interesses de terceiros, abre-se espaço para mais uma problemática que é a da destinação ou aplicação do produto das pesquisas. Este é mais um problema para os cientistas que, além de enfrentar todos os imprevistos e conseqüências da manipulação do objeto ainda deparam-se com o fato de, demasiadamente, seus inventos são usados para fins maléficos ou que vão de encontro aos seus princípios. Por depender de investimentos, os cientistas tornam-se vulneráveis aos poderosos e ficam de mãos atadas com relação ao uso do seu conhecimento, que geralmente é usado para a dominação mais fraco ou derrubada de concorrência, enfim, interesses capitalistas.

É natural de o homem contemplar a idéia de perfeição, esta é para ela inalcançável. O homem busca o equilíbrio, a harmonia tendo como fim a felicidade plena, esta é mais uma Utopia. É impossível para o homem alcançar a perfeição porque no próprio homem ela é uma idéia em construção, à medida que o homem evolui a sua idéia de perfeição também evoluirá e ela sempre almejará mais e mais. É certo que o homem alcança alguns dos seus objetivos, mas ao alcançá-lo ela já terá um novo e mais complexo. Assim, o Utópico será a máxima concepção de perfeição que o homem imaginar ou desejar.

São as Utopias que dão sentido à vida humana, a utopia é algo distante, sinalizador, uma meta a ser alcançada, ou em outras palavras é o objetivo. As utopias fazem parte da volição humana, isto é, do desejo o qual é desconhecido até mesmo pela própria ciência.

Ao longo da história são vistas inúmeras Utopias de grandes pensadores como Marx que queria uma sociedade totalmente justa, ou Freud que queria conhecer totalmente o Inconsciente e tornar o ser humano totalmente previsível, entender por completo esta instância. De certo estes pensadores deixaram um grande legado para a sociedade, os sonhos ou Utopias decorrentes dos seus pensamentos e críticas feitas aos mesmos, este é mais um campo que a ética do conhecimento tem que investigar, principalmente a apropriação destas Utopias, o desejo de realizar as mesmas imediatamente.

Estas Utopias que surgiram ao longo da história geralmente são compartilhadas por grande parcela da sociedade por acreditarem que estas irão dissipar os seus problemas e lhes trazer a plena felicidade. Mas determinadas ou pessoas ou grupos que lançam as utopias esquecem ou ignoram o fato de que estas só se concretizarão no coletivo, isto é, depende de todos para chegar a ser real. Muitas vezes estas utopias só são lançadas por interesse, para tirar proveito da boa fé dos que anseiam a felicidade, a concretização de algo desejado, esta é mais uma questão que a ética do conhecimento tem que refletir, pois lida com os anseios humanos e a possível apropriação dos mesmos.

O homem que se vê ignorante diante das coisas que o circunda, isto é, reconhece que não as entende transforma a usa vida em um laboratório de eterno aprendizado, assim é flexível com relação ao novo. Por outro lado, os que acreditam serem donos da verdade, já conhecedores de tudo o que há e acreditam que não há possibilidade de desvelarem-se coisas novas transformam-se em pessoas arrogantes, autocráticas, intransigentes por acreditarem terem a verdade absoluta, o conhecimento mais perfeito. De certo as primeiras pessoas citadas são mais democráticas e flexíveis, e isto aplicado nas relações interpessoais vai gerar harmonia, pois há a aceitação do novo e do estranho como algo normal, vê-se o outro como outro. Enquanto as pessoas as autocráticas, com a sua arrogância a autocracia proporcionam o oposto. Estes são fatores decisivos nos conflitos existentes na atualidade, geralmente são de origem étnica, ideológica ou religiosa provindos da arrogância.

Esses conflitos agregam-se a Utopias para ganhar prestígio e adeptos para luta, já que as utopias são desejos humanos e geralmente de um grande grupo, fica mais fácil agregar uma Utopia a um conflito de interesses, pois as pessoas que tem as utopias como objetivo de vida vivem no senso comum e não questionam o porquê de lutar, apenas lutam em prol de uma coisa, uma idéia de perfeição. Sabendo disso, muitos detentores do conhecimento apropriam-se dessa ingenuidade de uma massa para montar seu exército, seja ele de cristãos, soldados, militantes, etc. Estes detentores do conhecimento contam com artifícios para ludibriar os seus futuros ou já adeptos como a mídia escrita ou falada, esta modifica os fatos para as pessoas só absorverem o manto que encobre o verdadeiro fato, a idéia subjacente só os detentores do conhecimento a tem.

Estes são motivos suficientes para se pensar numa ética do conhecimento, o mau uso do conhecimento, ideologia por trás de idéias ingênuas e principalmente a apropriação do saber.

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