“Pedagogia de Projetos: Em busca de um novo sentido para as aprendizagens”

          

Anderson Rafael dos Santos Guedes

 

 

  Comentário do texto “Pedagogia de Projetos: Em busca de um novo sentido para as aprendizagens”

 

 

 Universidade Federal de Alagoas 

 Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes 

 Curso de graduação em Filosofia

 

 

Atividade apresentada ao curso de

 Filosofia, da Ufal, como requisito à

 nota para a disciplina Planejamento,

Currículo e avaliação da Aprendizagem,

Ministrado pelo Prof. Ms. Roseane Amorim.

          

 

             No âmbito da educação, ao longo do tempo, são feitas inúmeros questionamentos acerca do papel da escola frente às mudanças sociais e o desenvolvimento tecnológico, principalmente na área da informática e concomitantemente a globalização. De certo, essas mudanças refletem diretamente no âmbito educacional, seja no que diz respeito à novos métodos ou mesmo no corpo dicente, que também trazem consigo os reflexos destas transformações, ou seja, estes acompanham o desenvolvimento trazendo consigo marcas de novos sujeitos continuamente.

           Ora, a escola deve formar, antes de tudo, indivíduos capazes de viver[1], então, frente às transformações, há de se perguntar: que tipo escola executa com mais efetividade essa ação? Como executá-la? Que tipo de aluno formar? Qual o currículo necessário para essa formação? Por fim, mas não menos importante, quais competências os professores precisam desenvolver para este fim?

           De certo, através de pesquisas, são reveladas proposições que ajudam na orientação dos professores dando-lhes possibilidades de novas práticas pedagógicas para esta formação integral do alunado, no entanto, estas vêm acompanhadas de demasiado trabalho, ou melhor, excessivo trabalho. Como se este fato não bastasse, é visível a precariedade sistema educacional, que não dá condições objetivas de u trabalho efetivo dos professores, com isso não há possibilidade de realização de um trabalho mais concentrado voltado para a formação de sujeitos críticos, atuantes. Em detrimento deste fato é ocasionada a perpetuação da prática tradicional de ensino, ou seja, nas condições reais, com pequenas exceções, o que mais se formam são espectadores.

           Sabemos que a prática tradicional de ensino[2] é, pejorativamente falando, “pré-histórica”. Ora, esta não se adéqua às constantes transformações culturais que os alunos sofrem. Estas mudanças são de ordem comportamental, lingüística, entre outras, e isso é inaceitável, assim, é necessária a adoção de novas práticas que se adéqüem a tais transformações para ser possível atingir o objetivo educacional.

           O que dá sentido à aprendizagem dos alunos é, basicamente, proporcionar-lhes uma experiência de ensino que consista na adequação do conhecimento introduzido com a vida social particular. Isto é, algo que transcenda as paredes da sala de aula e ganhe sentido nas vivências quotidianas de cada envolvido neste processo de aprendizagem, inclusive o professor. Nesse sentido é chamar a escola de Escola de Vida, para não absorver apenas “verdades” impostas, mas sim para construir e reconstruir as suas verdades num processo ativo.

           De fato, para isso tem que haver primeiramente uma nova postura das escolas. Isso demanda principalmente a reorganização no currículo e uma relação diferenciada entre professor e aluno e saber. Tem que se ter consciência de que, nesta nova visão de educar, estes três elementos estão ligados intrinsecamente e só podem desenvolver-se juntos reciprocamente na intenção de não apenas saber, mas sim aprender, saber e fazer.

           Essa nova postura tem com base a dinamicidade e interatividade e nesta é mister considerar tanto os papéis do professor e do aluno quanto o dos conteúdos escolares. Ora, a pedagogia de projetos faz isso. Esta propõe o estimulo e orientação do aluno no seu próprio processo de formação, socialmente, emancipando os indivíduos, tornando-os responsáveis, despertando sua consciência[3].

           A priori, é necessário o interesse e comprometimento dos alunos para a efetivação de um projeto, estes são pré-requisitos indispensáveis. Por conseguinte, o professor não deve ter a postura de um pedagogo tradicional, próprio de uma tendência liberal[4], mas sim de se prontificar a participar do processo de aprendizagem. Neste caso, de fato o professor é quem comanda a situação, e isso é necessário, pois os alunos precisam de alguém para orientá-los, no entanto, este coordenador não se mostra aqui como ditador e sim como parte integrante na construção de algo proveitoso para todas as outras partes integradas. Isso significa abrir mão de uma tradição fundante da história escolar, abrir mão de uma unilateralidade de lógica, de absolutismo da imagem do professor. Por outro lado, é sujeitar-se a, como já foi dito no início, de uma leva maior de trabalho que irá exigir de si maior competência principalmente para reorganizar o tempo e espaço escolares.

           Quanto os conteúdos escolares, estes têm papel fundamental se bem aplicados a projetos. Primeiramente, estes têm uma função social, assim, perdem o status de neutros, com fim em si mesmo e passam a ser instrumentos culturais, ou seja, como diz Rejane Maia, “meios eficazes para a compreensão da realidade[5]”, ou seja, têm o sentido de não serem apenas receptados como uma forma de ensino bancária, mas ganham significação na vida integral de cada aluno sendo contextualizados, aplicados na relação teoria/prática. É mister citar que estes conteúdos não são determinados como por PCN’s[6] (Parâmetros Curriculares Nacionais), mas sim pela necessidade e interesse dos alunos.

           Apesar de não serem predeterminados os conteúdos de um projeto, tem de haver uma metodologia. Esta tem de unificar os objetivos do grupo-classe (projeto pressupõe grupos), e estes sim tem de per predeterminados, pois, como já foi dito, os conteúdos tem uma significação social, então, de um projeto se obterá um produto, que está impregnado ao conteúdo trabalhado, assim, chegar a este produto é um trabalho de desenvolvimento potencial[7]. Neste desenvolvimento, além do professor e alunos, toda comunidade educacional (demais educadores, família) pode e deve ser incluída no projeto no intuito tanto de abranger mais indivíduos nesta experiência, quanto melhorar demasiadamente a gestão do projeto. Isso traz consigo algo de excepcional, que é o melhoramento das relações sociais e a troca de experiências entre os indivíduos, possibilitando a aprendizagem recíproca.

 

            Sobre as etapas de um projeto:

 

           São três as etapas de um projeto, a primeira, a escolha de um tema a ser trabalhado, demanda algumas coisas a priori: este tema precisa ser relevante para a maioria do grupo, possibilite uma interdisciplinaridade[8] e também a transformação dos esquemas cognitivos dos alunos através de uma atitude investigativa. Para isso tem que se levantar questões e problemáticas, que estas têm o poder de fazer o projeto fluir, desenrolar-se, obviamente, o professor, à posição que lhe compete (orientador), deve dirigir o curso do projeto em direção ao fim desejado. Isto compete ao professor, neste posto de guia, cuide do desenvolvimento dos saberes dos alunos, ou seja, é mostrar o que há de essencial neste percurso para a melhor assimilação do grupo-classe, tendo como base a reflexão e argumentação, enfim, o espírito crítico, pois nesta fase, o desenvolvimento destas capacidades é privilegiado.

           Definido o tema e feita a problematização, é hora de começar o processo de organização; “dos problemas e conteúdos principais que serão trabalhados” (ação que deve ser executada por professor e alunos conjuntamente), é percebido que, em virtude da interdisciplinaridade que o projeto pressupõe, surjam novos problemas interessantes. É possível acrescentá-los á problemática desde que não se fuja do caminho a ser percorrido e estes ajudem na melhor apropriação do conhecimento, como objetos de reforço. Feito isso, depois de registrado, esse planejamento deve ser exposto em local acessível, isso facilita a auto-gestão dos alunos e facilita o trabalho do professor, pois não é necessário recorrer a ele em todos os momentos para se saber a respeito de algo, assim os alunos adquirem consciência de responsabilidade e de seus objetivos alcançados e almejados. Em suma, isto proporciona a organização do projeto acompanhada da incorporação de novas atitudes aos alunos.

           Após esta fase, devem ser definidas as atividades a serem feitas para a solução dos problemas levantados, ou seja, é a hora de definir como trabalhar. O projeto em si pode ser definido como uma atividade extensa, composta de várias outras atividades articuladas, logicamente, coordenadas em função do fim desejado. Há três principais tipos de atividades. As que coletam informações; coletar no sentido de pesquisar, buscar informações nas mais diversas fontes, seja elas escritas, faladas ou em recursos visuais. É importante que estas sejam definidas em função da natureza dos problemas levantados. Nesse momento de pesquisa, é interessante dispor de recursos tecnológicos, quando possível, pois estes são grandes instrumentos de pesquisa, facilitadores e instigantes, já que é visível a atração das pessoas por recursos tecnológicos avançados. Ademais esta é uma das propostas dos projetos, adequar-se ao novo, ao contemporâneo para tratar do novo, ou seja, ajudar os indivíduos adequados às novas atitudes, comportamentos, costumes a formarem-se como sujeitos capazes de interagir com o seu mundo, sua atualidade, sua cultura.

           Segue-se a proposta fazendo agora um filtro do que foi coletado, trabalho do professor, o que não descarta uma possível ajuda de familiares e da comunidade educativa como um todo. Nesse filtro é separado o essencial do acessório e com base no que foi selecionado pode ser feito inúmeras atividades que, inclusive, servem de fixação do conteúdo. Estas atividades podem ser de natureza artística ou produção de textos, tabelas, gráficos, todos com o fim de favorecer a sistematização dos conhecimentos, ressaltando que, fazendo isso os alunos produzem seus próprios conceitos através da interpretação individual e/ou coletiva. É partir pra a prática. Isso favorece a tomada de consciência individual e a modificação de esquemas cognitivos.

           Por fim, depois de registrado o que foi concluído, na intenção de construir a memória de projeto, e este pode ser fito de inúmeras formas como: escrito, visual, verbal ou ainda, possibilitando o uso de recursos tecnológicos, os mais variados (computador, televisão vídeo). Quanto à exposição ela pode ser simples, entre os próprios alunos na sala de aula, ou mais ampla, estendendo à comunidade, outros alunos de outras escolas, familiares, enfim. O importante é que, seja qual for a forma de exposição, que ela brilhe[9] da mesma forma. Estes são exemplos do que pose ser feito: montar uma peça teatral, produzir um filme em vídeo, construir um livro, organizar um sarau de poesias e expô-los

           Quanto a avaliação, ela deve ser feita considerando a totalidade do projeto em cada ser particular, pelo que o aluno aprendeu, se alcançou os objetivos esperados, empenho, participação. Pode-se considerar também opiniões de outras pessoas envolvidas no projeto, como foi citado anteriormente, da comunidade educacional, inclusive dos pais. Isso demanda fidelidade nas opiniões e julgamentos, pois a falta desta em alguns casos adversos pode e vai contribuir negativamente na avaliação, por exemplo,  se determinado alunos não se esforça durante o processo e uma determinada opinião de alguém visando uma aprovação deste aluno o favorece, na verdade o está condenando a seguir sem adquirir tal competência, que se fosse julgada com fidelidade poderia ter sido corrigida posteriormente por alguém responsável.

 

           Sobre a natureza dos projetos, por que ela varia.

 

           A natureza de um projeto está relacionada à duração do mesmo. Há projetos de investigação e de empreendimento. O primeiro é mais longo, enquanto que o segundo é mais curto. Os projetos de investigação, por serem mais longos “possuem mais etapas e podem ou não gerar produtos definidos pelo grupo[10]”, porém, o que dá sentido a este é o próprio processo de busca, ou seja, está além do problema. Os projetos de empreendimento, estes sim tem seu sentido no objetivo, na predeterminação, além disso, culminam na construção de um produto. Este também pode ser realizado em cooperação com outras turmas ou com toda a escola.

           É possível trabalhar mais de um projeto por vez dependendo da sua abrangência e natureza. Deste modo, os projetos de investigação não são viáveis para a realização simultânea, por serem mais complexos e interdisciplinares. Fazendo isso o risco de não se chegar a fins desejados é muito grande, pois a produção conceitual deste tipo de projeto é bastante extensa, assim, é mais aconselhável realizá-los um por vez.

           É mister salientar que trabalhar todos os conteúdos planejados para determinada classe em forma de projetos, mostra-se um método demasiadamente falho, pois a abrangência é de uma significância tal, que nem sempre é possível privilegiar todos os conteúdos, assim, cabe ao professor recorrer a outras atividades extra-projeto, como dinâmicas.

           São visíveis as grandes contribuições que os projetos trazem para a prática pedagógica, seja no quesito formação integral do sujeito, como na questão de planejamento, na interação das disciplinas, todas agindo em prol de um fim comum, sem haver a cisão disciplinar encontrada no pratica pedagógica tradicional, onde cada disciplina, com seus conteúdos, vivem nos seus mundinhos isolados. Outro fato que acompanha os projetos é que quando um professor passa a agir com a postura necessária para essa pratica se efetivar, ele passa a agir de tal modo em qualquer outra metodologia que use na sua vida pedagógica. Visto que isso é essencial para a formação não só escolar, mas também na formação humana de todos envolvidos no processo de aprendizagem.

           Efetivar esta postura citada acima não é coisa simples. Não basta ter uma formação teórica bastante extensa e assim, apenas conhecer o que é necessário para realizar mudanças. O principal a fazer é se submeter ao papel de objeto, essencial par a construção de sujeitos.[11] Isso pressupõe a revisão das práticas particulares não só pedagógicas, mas também as pessoais, no que diz respeito ao comportamento, atitudes.

          Por fim, é importante ressaltar que a postura do professor é fator decisivo na formação, pois dependendo dela os alunos podem ter uma experiência educacional construtiva, transformadora, revolucionária e libertadora ou, por outro lado uma experiência desastrosa, traumatizante e alienadora. Então, a atitude começa e gira em torno do professor, este tem poder tanto pro bem quanto pro mal. 

 


[1] O termo viver aqui é entendido num sentido amplo da palavra, não apenas no sentido de existir, mas sim, esse existir como sujeito histórico, autônomo e efetivamente capaz, ou seja, despendido de minoridade.

[2] Predomina a autoridade do professor que exige atitude receptiva dos alunos e impede qualquer comunicação entre eles. O professor transmite o conhecimento na forma de verdade a ser absorvida; em conseqüência, a disciplina imposta é o método mais eficaz para assegurar a atenção e o silêncio. (LIBÂNEO, José Carlos; Democratização da escola pública: A pedagogia crítico-social dos conteúdos, 8 ed. São Paulo, Loyola, 1989)

[3] Consciência deve ser entendida aqui, como a compreensão total do termo, registrada na própria linguagem, a totalidade dos fenômenos psicológicos e morais, ao mesmo tempo muito diversos e continuamente entrelaçados. (CHENU, Marie-Dominique. O despertar da consciência na civilização medieval. São Paulo, Loyola, 2006)

[4] O termo liberal não tem o sentido de “avançado”, “democrático”, “aberto”, como costuma ser usado. A doutrina liberal apareceu como justificação do sistema capitalista que… Estabeleceu uma forma de organização social baseada na propriedade privada dos meios de produção… A pedagogia liberal, portanto, é uma manifestação própria desse tipo de sociedade. (LIBÂNEO, José Carlos; Democratização da escola pública: A pedagogia crítico-social dos conteúdos, 8 ed. São Paulo, Loyola, 1989)

[5] (MAIA, Rejane. Pedagogia de Projetos: Em busca de um novo sentido para as aprendizagens ecolares. Instituto Ricardo Brenand. Eckhout, Recife, PE.)

[6] Sobre os PCN’s: “O conjunto das proposições aqui expressas responde à necessidade de referenciais a partir dos quais o sistema educacional do País se organize, a fim de garantir que, respeitadas as diversidades culturais, regionais, étnicas, religiosas e políticas que atravessam uma sociedade múltipla, estratificada e complexa, a educação possa atuar, decisivamente, no processo de construção da cidadania, tendo como meta o ideal de uma crescente igualdade de direitos entre os cidadãos, baseado nos princípios democráticos. Essa igualdade implica necessariamente o acesso à totalidade dos bens públicos, entre os quais o conjunto dos conhecimentos socialmente relevantes”. (Ministério da Educação, Parâmetros Curriculares Nacionais, Considerações Preliminares, 3º Par.)

[7] De potência; conceito Aristotélico.

[8] A interdisciplinaridade pode significar que diferentes disciplinas encontram-se reunidas como diferentes nações da ONU, sem, entretanto poder fazer outra coisa senão afirmar cada uma seus próprios direitos e suas próprias soberanias em relação às exigências do vizinho. Ela pode também querer dizer troca e cooperação e, desse modo, transformar-se em algo orgânico. (MORIN, Edgar. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. São Paulo: Cortez, 2002, p. 37.)

[9] Brilhe deve ser entendido como, não necessariamente como “seja esplendorosa” ou “que seja algo de encher os alhos frente à tamanha magnificência” ou ainda “que seja um grande evento”, mas sim, que junto a isso não se perca o sentido do é esperado do mesmo, ou seja, que o objetivo seja alcançado, ou ainda, que se efetive.

[10] (MAIA, Rejane. Pedagogia de Projetos: Em busca de um novo sentido para as aprendizagens ecolares. Instituto Ricardo Brenand. Eckhout, Recife, PE.)

[11] Em oposição a “colocar-se como sujeito”, ou seja, submeter-se a passividade. Apesar desta submissão, ele não deixa de ser sujeito neste processo.

~X~

 

(Anderson Yankee)

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