Entrevista com um Professor do Ensino Médio

 

~Entrevista ~

 

Eu, Anderson Rafael dos Santos, entrevistei o professor que me ensinou no ensino médio no ano letivo de 2008, ele chama-se Flávio Santana e com base nas perguntas propostas pela professora Geórgia Sobreira, me deu as tais respostas:

O mesmo é do sexo masculino e tem 32 anos, mora em Maceió e atua tanto na rede pública quanto na rede privada, leciona na Escola Estadual Profª Irene Garrido (na qual ele foi meu professor), esta da rede pública, e nos colégios Marista de Maceió, Colégio São Jerônimo e Colégio Diógenes, ambos da rede privada e de Maceió. No Colégio Diógenes ele leciona do 7° Ano (antiga 6ª série) à 3ª série do ensino médio e nos demais só no ensino médio, mostrando assim que mesmo com contradições quanto a importância do ensino de filosofia nas escolas, ele em parte das escolas vem sendo implantado não só no ensino médio (que passou a ser obrigatório), mas também no ensino fundamental (que não é obrigatório).

Flávio possui formação acadêmica, formou-se na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) no curso de Licenciatura em Filosofia no ano de 2004, não fez nenhuma especialização nem cursos para se atualizar e nem Pós-graduação. Atua como professor há 3 anos, antes disso fazia pesquisas na área de educação. Segundo ele, tem um total de 38 horas/aula semanais, sendo 26 destas lecionando a disciplina de Filosofia e as outras 12 horas são da disciplina de Sociologia, esta última só pra o ensino médio. Com isso podemos chamar atenção para outro caso bastante comum nas escolas, o fato de um professor licenciado para ensinar disciplina “A” ensinar disciplina “B” ou então “A”+”B”, a qualidade do ensino será relativa, varia muito, pode haver professor que lecionará bem ou mal esta outra disciplina. ( Flávio:  Lembro que quando cheguei na escola “X”, foi um choque para os alunos a minha aula, pois a professora de antes não era de filosofia, ela não tinha um currículo específico e os alunos nem se quer conheciam Platão, eles diziam que a aula era difícil demais e que a antiga professora não dava aula assim, ela dizia que filosofia era pra relaxar, meditar…). Com 38 horas/aulas semanais Flávio tira de 3 a 4 salários, e não está satisfeito, no entanto não faz algo para mudar sua realidade salarial ( Flávio: Praticamente não faço nada [risadas], se reclamar posso ser demitido, sempre tem aquela de que há milhares lá fora querendo um emprego, também não vou largar o emprego pois preciso dele, é, não faço muita coisa…mostro minha insatisfação). Falou também sobre salário da classe docente que em geral são muito baixos e não são condizentes com tamanho trabalho e importância deste trabalho para a sociedade como um todo, diz que há uma desvalorização total da classe e deveria sim haver um investimento adequado.

Flávio não é sindicalizado, diz que nunca sentiu vontade de sindicalizar-se, já pensou, mas nunca teve uma motivação e acha fraca a atuação do sindicato para com os governantes, diz também que em determinados assuntos o sindicato é coniventes e deveria se posicionar mais com relação à assuntos de interesses da classe docente.

Disse ele que na sua graduação, no início, havia mais mulheres do que homens e no decorrer do curso elas iam migrando para outros cursos como pedagogia, biblioteconomia, letras, enfim, viam que não era sua área e trocavam de curso, ficando assim os homens em grande maioria na Graduação de Licenciatura em Filosofia. Com relação a essa predominância das mulheres no magistério, Flavio disse que isso se dá devido a uma questão cultural, elas, excluídas da política, não havendo outra forma de emprego que a valorizasse migravam para a docência, onde tinham um certo prestígio para com a sociedade (Flávio: Ah, era o sonho dos pais que o filho fosse doutor e a filha professora, isso de certa maneira ficou impregnado na cabeça da sociedade…isso também contribuía para essa predominância das mulheres no magistério…”as professorinhas”). Tivemos a oportunidade de abordar esta questão nas aulas da matéria Profissão Docente, e com base no texto 6 (Profissão Docente: uma questão de gênero?) vimos vários fatores que contribuíram tanto para a feminizarão da educação em algumas áreas quanto para um escassez feminina em outras áreas. O texto fala da questão histórica, onde no passado as mulheres migravam para a educação devido a exclusão das mesmas em outros âmbitos como o da política e dos trabalhos intelectuais. É notável que elas dominam, atualmente, as séries iniciais mas de acordo com o aumento do grau das séries, essa diferença com relação aos homens vai diminuindo chegando, em algumas disciplinas, a serem superadas espantosamente pelos homens. Não creio que educar seja questão de gênero, “a mulher leva mais jeito”, é certo que elas, em sua maioria, são mais cuidadosas, dedicadas, pacientes, enfim, possuem adjetivos referentes à amabilidade, mas estes, em determinados momentos podem não vir a calhar, gerando algo não positivo. Esta questão é totalmente relativa, na educação gênero, assim como a vocação não são essenciais, mas sim, elementos de diferenciação do método de educar.

Falando sobre a situação da educação pública brasileira, o Professor diz que ela é de qualidade razoável, diz ele que deveria haver mais investimentos, tanto nas escolas, pois andam sucateadas e de péssima estrutura, quanto para os professores com melhoria nos salários, isso melhoraria em parte considerável o ensino, haveria uma maior rendimento, já que os alunos sentir-se-iam mais motivados (Flávio: fica difícil motivar os alunos a estudar quando não há uma estrutura adequada, é até desmotivador para o próprio professor ver aqueles semblantes, de alguns, de nojo da própria escola…quem sofre são eles mesmos, afinal de contas estamos lidando com o futuro, e o que será do futuro com pessoas revoltadas desde cedo? Com certeza deveria haver mais investimento nas escolas públicas, mas também não vou dizer que a qualidade é péssima, pois afinal de contas faço parte dos que a faz [risadas]). Nas aulas ministradas pela professora Geórgia pude imaginar pela primeira vez todos esse fatores da precarização do trabalho dos professores no texto 5(A precarização do trabalho docente em Alagoas no contexto das políticas neoliberais), que trata justamente desta precarização. O texto mostra como principais fatores desta precarização as condições irregulares de trabalho, a má formação dos professores e a péssima organização do ensino. Tudo isso como agentes da precarização que não é recente.

Flávio frisou que é de total importância o trabalho do professor na sociedade, diz que é fundamental, essencial na sociedade e que não existiria as profissões que dependem do ensino se não houvesse um professor para orientar os alunos e não se conforma com tamanha desvalorização por parte dos governantes, diz que todo mundo acha bonito ser professor mas ninguém quer ser, é uma profissão que tem que amá-la para entrar no seu mundo, é vista também como “saída”, aquela que se busca quando não há mais o que fazer, procurada por alguns pelo fato de não se ficar desempregado, ter sempre emprego fácil. Diz também que nunca largou sua profissão justamente por isso, por amá-La, sentir-se realizado dentro de sua profissão. Antes de escolher o curso de Filosofia queria fazer Psicologia, mas entrou no curso e começou a gostar, aprendeu a gostar da Filosofia e continuou, e tem uma ótima relação com ela até hoje, mas o antigo sonho ainda existe, pensa em um dia fazer Psicologia como mais uma realização pessoal.

Disse que demorou a encontrar emprego no meio docente, mas não pela falta mas pelo fato de que era pesquisador e suas pesquisas o fez não optar de imediato pela profissão docente, depois que terminou a graduação passou 2 anos para realmente jogar-se na luta diária dos docentes. Conseguiu emprego através de concurso público. Nesses 3 anos de profissão encontrou e encontra como maiores dificuldades para se ensinar filosofia, a resistência dos jovens com relação ao pensar, principalmente nas escolas da rede privada, pois geralmente não são muito preocupados com a vida e já tem tudo o que querem, são acostumados a ter tudo pronto e não seria diferente com o pensamento, já querem as respostas e não se auto-perguntarem, refletir, enfim (Flávio: Isso não cabe a filosofia, dar respostas prontas não é a área da filosofia, é totalmente o contrário, levar à reflexão, ao pensar, e eles não querem pensar, querem tudo pronto).

 

 

 

(Andinho Yankee)

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