Breves Discussões acerca da música

 

 Ei você aí… Pessoa recatada, formal, que gosta de MPB, ler bons livros, enfim, gente boa da elite, vamos para um show de forró ou swingueira, arrocha, pagode? Nossa, deu até para ouvir o NUUUUUNCAAAA.  Esta cena é comumente repetida aqui no Brasil, lamento muito e até repudio este ato, o que não me faz ter algum sentimento negativo a respeito destas pessoas que criticam o que é do povo, que às vezes chega a ser erótico e “vulgar”.

A partir desta primeira discussão vamos iniciar uma citação acerca de determinadas músicas de determinados ritmos musicais geralmente executados nas periferias do nosso belo Brasil.

 

“Eu adoro música, amo swingueira, adoro forró e outros ritmos derivados destes, adoro suar de tanto dançar de acordo com a melodia destes ritmos, pular, descer até o chão, subir, me jogar sozinha ou acompanhada, enfim, é tudo de bom”. (Samara Nobre)

 

Como vimos nesta frase dita pela minha irmã estes ritmos musicais tem o poder de não deixar quem escuta parado, isto é bom, exercícios fazem bem para o coração, para o corpo e para a alma, isto é, proporciona o bem-estar mental/físico, é uma relação recíproca.

 

Música e a mente

Segundo Freud, quando se está angustiado há dois tipos de dissipar a angústia que são a assimilação e a sublimação. A assimilação consiste, basicamente, em cortar o mal pela raiz, exemplo: Está com sede bebe água. A sublimação consiste, basicamente, em trocar o mal por um bem, exemplo: To com sede e não tenho água vou brincar para me entreter e esquecer, temporariamente, a minha sede.

Trazendo isso para o assunto inicial podemos dizer que a música em determinados casos pode servir como agente de sublimação, por exemplo: Estou com um problema que me atormenta demasiadamente e que é de difícil resolução, lembro que irá ter um show no próximo final de semana, então posso ir para o show para desafogar um pouco, esquecer o/os problema/problemas.

Concluímos então que a música é um bem valioso para a sociedade, pois serve para desangustiar, trazer alegria para as pessoas, mesmo que temporariamente. É certo que se deve, na medida do possível, assimilar os problemas que venham a nos atingir, mas se não é possível, vale a pena ser feliz por alguns minutos ou horas.

 

Multiplicidade de gostos

“Gosto não se discute”, acho essa uma das frases mais inteligentes das que já foram ditas. Imagine um diálogo de amigos onde uma pessoa goste de uma coisa e outra goste de outra coisa diferente, vamos supor que para o gosto da primeira pessoa seja chocolate preto e para a segunda pessoa o seu gosto seja chocolate branco, a primeira pessoa oferece o chocolate de seu gosto à outra e a mesma não aceita, pois não tem o mesmo gosto da primeira pessoa e a agride e ainda esnoba o gosto da pessoa que a ofereceu por ser diferente do seu. Esta se enche de argumentos para rebaixar o gosto do seu amigo pelo simples fato de ela não gostar ou quem sabe nunca ter provado pela aparência diferente da aparência do produto de seu gosto ou também pelo fato de gostar tanto do seu produto e não provar outro produto diferente por um medo inconsciente de gostar. Esta pessoa continuará no seu mundinho de chocolate branco e perderá de sentir o gostinho do que é escuro, de saber o que pode haver de bom no lado escuro do seu chocolate tão querido.

A atitude da segunda pessoa foi totalmente estúpida, é certo que eu dei certa ênfase à cena, mas isso acontece na realidade. Por preconceito a pessoa criticou o gosto do amigo, neste caso ele agiu por impulso e deixou de considerar os benefícios que o produto do amigo traz para o mesmo, isto é, prazer em degustar aquele chocolate ou se ele lhe traz alguma lembrança de algum lugar ou pessoa, enfim, tudo que possa estar relacionado ao prazer daquela pessoa ao comer aquele chocolate.

A partir deste exemplo comumente visto no cotidiano humano (não pelo fato das pessoas discutirem por causa de chocolate… rsrsrs… mas pela idéia subjacente da questão que é a recusa pelo desejo do outro por ser algo diferente do seu), que é o preconceito pelas coisas que o outro gosta por ser algo que nos incomoda, ou não é belo ou saboroso aos nossos olhos, boca ou ouvidos. Mas será que é certo esnobar o que é estranho a nós e comum ao outro apenas pelo estranhamento? Será que tudo tem que ser belo ou saboroso para nós? Será que não há como viver em harmonia com os opostos? Eu digo que se deve ser bastante flexível quando se trata de gosto alheio, por isso digo que aquela frase (“Gosto não se discute”) é uma das mais inteligentes que eu já vi, ela deixa explícita a questão da flexibilidade, o gosto dele é esse e o meu é esse e não há o que discutir apenas respeitar. Se quisermos fazer com que uma pessoa goste do que gostamos, devemos oferecê-la o nosso gosto e se for necessário argumentar a favor de que gostamos, mas nunca rebaixar e dizer que é feio ou mal o gosto do outro.

Podemos trazer esse assunto para a nossa questão inicial que é a música. Como pode alguém dizer que determinado tipo de música é mal ou feio apenas por que não gostamos do mesmo?

Já vimos que a música (isto inclui todos os ritmos de música) serve como um refúgio para se livrar da angústia, então como pode o objeto de consolação de uma pessoa ser mal ou feio?

Aquela música faz total bem para ela, aquela música que a salva de, quem sabe, da depressão, da monotonicidade da sua vida, dos problemas rotineiros, enfim, do que venha a lhe afligir ¹.

 

¹  Com esta citação não se está querendo dizer que a música seja a única forma de sublimação, pois há várias outras formas como ler, conversar, trabalhar, isto é, situação aonde vá tirar a concentração do indivíduo da questão problemática e perturbadora.

Portanto, quando se há consciência não se esnoba ou julga o gosto e o desejo alheio, pois cada um tem o seu e estes não são e nem devem ser, necessariamente, igual, pois a multiplicidade existe e sempre existirá, sendo assim acostume-se com o gosto alheio, prove-o se for possível (e se não tiver medo de gostar), mas nunca o menospreze, pois se pra você ele é um mal pode ser um bem para o outro.

 

Expressão musical

Ainda na questão da critica ao gosto alheio, discutiremos agora sobre as letras das músicas escutadas, geralmente, pelo povão da periferia. Esta é a parte das músicas populares que é mais criticada, algumas vezes por dar ênfase ao lado sexual ou erótico. Também não vejo motivos para críticas esta questão, vejamos o porquê.

Outra característica da música é a forma de expressão, isto é, com a música as pessoas expõem seus sentimentos em forma de melodia e poesia. Até aí tudo bem, mas onde entra a vulgaridade das letras? Isto já foi respondido, não viu? É simples, as músicas são formas de expressão, então é lógico que a “vulgaridade”, a sensualidade, o eroticismo são apenas pensamentos que os compositores tiveram e, ao contrário dos recatados formais, colocaram pra fora de uma forma bem divertida. Se uma pessoa tem pensamentos que explicita a sexualidade, o que há de mais? Quer dizer que você não pensa em sexo? (Não acredito!) Você pode estar pensando em livros, uma boa comida, um passeio alegre, tudo bem isto é ótimo, mas pode ser que nesse mesmo instante o seu colega esteja pensando em noites de sexo, amor, luxúrias puras, e em outro momento pode ser ao contrário; O que há demais nisso? Do mesmo jeito que uma conversa pode ser sobre sexo e outra sobre um filósofo; Qual é a diferença? Não vejo nenhuma, ambos os pensamentos e conversas são sobre coisas humanas (por acaso o sexo não é uma coisa humana?). O problema é que as pessoas têm vergonha, medo de mostrar o que são realmente e repudiam aquelas que mostram o que são.

Mais uma vez digo, é o gosto dela e o seu que se confrontam e já foi dito o que se fazer nestes casos.

No início deste tópico eu citei que música é poesia, então você me pergunta: Isso que é poesia, essa vulgaridade? Eu digo outra vez que sim. As poesias têm que ser necessariamente com belas rimas que falam de amor e de dor? Digo que não, as poesias são rimas onde são depositados os sentimentos que habitam o ser naquele momento em que foi escrita, portanto as músicas que os formais dizem ser “vulgares” são apenas poesias, porém poesias que fogem da idéia de poesia que os mais cultos têm, estas falam da sexualidade e do eroticismo.

Nesta discussão surge outra questão que é a da idéia impregnada, é aquela de achar que as coisas comuns são daquele jeito e os demais estão errados. Trazendo para a questão principal, falo desta idéia de achar que poesias têm que falar de amor e dor, que música tem que ser ópera e MPB e o resto são lixo, é pobreza cultural. Isso me revolta bastante, pois estas são como robôs que agem segundo a vontade de quem o programa, isto é, recebem uma programação que diz que as coisas são como são e todo mundo tem que aceitar, pois o oposto é errado, e neste caso o programador é a maioria, a idéia e a opinião comum do grupo que abrange a maior quantidade de indivíduos.

 

Critica aos formais

Esta critica é um pouco baseada naquela pequena sátira do início, ela mostra um pouco como, geralmente, as pessoas formais, sejam elas de classe baixa, média ou alta, repudiam a hipótese de freqüentar um lugar onde há o pessoal informal, sendo mais direto, eu to falando de shows de forró, swingueira e outros ritmos derivados destes.

Lacan já dizia que as diferenças existem e que elas são essenciais, então devemos olhar o outro como Outro e não como nós queremos que o fosse. Mais que humildade, esse ato reflete o auge da humanidade, afinal nos dizemos racionais, espelhamo-nos no perfeito; muito me admira pessoas com este pensamento de contemplação do perfeito estarem apegados à críticas sem nexos ao que é estranho a si, somente por ser estranho a si.

A crítica e o repudio aos diferentes, nesse âmbito, é sinônimo de arrogância. Pouco se diferencia do racismo, da homofobia, do dogmatismo e da psicose ou doença mental generalizada. É digno de pena quem não aprendeu a respeitar o outro como o Outro que ele é, é preciso tomar uma dose de humanidade, ou apenas sair da caverna.

 

(Andinho Yankee)

7 respostas em “Breves Discussões acerca da música

  1. "É digno de pena quem não aprendeu a respeitar o outro como o Outro que ele é, é preciso tomar uma dose de humanidade, ou apenas sair da caverna." Com essa frase, fechasse com chave de ouro esse teu texto tão inteligente. Sério, já disse alguma vez que o seu poder de argumentação é MUITO grande e poderoso? Se não, saiba disso; é e muito. E é a pura verdade o que disseste; muitas vezes repudiamos o \’diferente\’ pelo fato do diferente nos incomodar, tanto pelo fato de inveja pelo o outro ser o que é, talvez uma coisa que queriamos ser, mas não temos coragem; ou pelo fato de não conhecermos, e termos medo de conhecer. A gente precisa sair da caverna, ampliar a nossa visão, não ter medo do desconhecido, respeitar o Outro, como você disse, do jeito que ele é. Não impor nossa opinião, mas sim expor com argumentos, e nunca à força, de modo brusco e desrespeitoso para com o Outro. Um ótimo texto, Anderson. Ótimo mesmo! Parabéns.

  2. Agradeço o comentário, muitos chamam esse poder de argumentação do qual vc falou de sinismo, eu até que gosto. Essa é só mais uma das minhas revoltas, não vejo luz em quem faz algo sem pensar ou por dominação inconsciente. Pensar faz tão bem.

  3. "Que honra, minhas palavras em seu texto.que bom que elas contribuiram para algo tão inteligente e intrigante.Texto muito bem redigido e conciso.Parabens Andinho Yankee,sinto que ainda vou ouvir muito esse nome ecoar aos ventos.

  4. Ainda não vejo nada demais na questão de tratar de assuntos relacionados a vulgaridade humana…O humano gosta da putaria, da sensualidade, da vulgaridade por natureza, apenas esconde de não sei quem, por medo de assumir, de expor, de mostrar… De certo irá negar, mas põe uma camera escondida na casa de qualquer santinha e olha o que foi gravado quando, na companhia do parceiro ela estava só… Acha mesmo que vai sair uma melodia magnifica, uma ópera? Vai não, Aí fica a pergunta, vale a pena fingir e viver uma vida de farça? Pra mim não vale, eu sou determinada coisa e não nego a coisa…Me poupe! Falamos que gosto é goso, não se discute, cada um é um contexto, certo!Isso foi levantado acerca da música. E pra personalidade humana, isso nao vale?Será que uma pesoa não pode ser de tal maneira, dizer tas palavras ou gostar de tal coisa de modo que não vá causar estranhamento? É menor a pessoa que dá valor ao peito, à bunda, à vagina com relação a quecurte MPB, livros, boa comida?Me poupe denovo!

  5. aiaiai…De certo está exposto na letra o retrato da personalidade da pessoa…Concordo com a livre expressão, pra que ser infeliz pra fingir algo?Deixa ser…

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